Na data em que é comemorado o Dia do Trabalhador, quase 30 milhões de brasileiros não têm muito o que celebrar. Pelo menos não enquanto a economia permanece com um crescimento pífio e o mercado de trabalho segue em modo de letargia.
Ao divulgar ontem a Pnad Contínua do trimestre encerrado em março, o IBGE repetiu números ruins que já haviam aparecido poucos dias atrás no anúncio do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e reforçou a fragilidade do mercado de trabalho que, desde 2015, não consegue se recuperar de maneira sustentável.
Entre os dados mais recentes do desemprego no Brasil, que certamente é o lado mais cruel de uma crise, estão a taxa de desocupados de 12,7%, 13,4 milhões de desempregados e o recorde de 28,3 milhões de pessoas subutilizadas, que é o grupo formado pelos profissionais subocupados (que trabalham menos de 40 horas semanais), desalentados (que desistiram de procurar emprego), os que poderiam estar ocupados, mas não trabalham por uma série de motivos, e pelos desempregados.
Esse quadro devastador não se transforma da noite para o dia, ainda que transborde vontade de diferentes atores para tal. No final de 2018, por exemplo, havia uma grande expectativa de que a mudança de governo seria responsável por injetar mais confiança no país e o ciclo virtuoso começaria a girar, mas não é isso o que estamos vendo acontecer.
Vontade dos trabalhadores de voltarem para o mercado existe, vontade das empresas de produzirem mais e contratarem há de sobra e vontade dos especialistas de traçarem diagnósticos mais otimistas certamente não falta. Mas vontade pura e simples não basta.
O país precisa de ações concretas que passam por um ajuste fiscal severo nas contas públicas, como por meio da reforma da Previdência, e de iniciativas que sejam capazes de criar um ambiente propício para os investimentos. Enquanto isso não acontece, o mercado de trabalho e a própria economia seguem anêmicos.
A frustração que cada dia fica mais aparente é possível de se acompanhar por meio dos números do Boletim Focus, divulgado sempre às segundas-feiras. A cada semana, a curva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) cai. Em dezembro de 2018, os economistas consultados pelo Banco Central esperavam que a economia avançasse 2,5%. Hoje, esse patamar está em 1,7%. E já há analistas que falam que fechar o ano com alta de 1% seria lucro.
Está faltando à equipe do ministro Paulo Guedes trabalhar com medidas que corram paralelamente à votação da reforma da Previdência. Ações menores, se somadas, podem ter um efeito de estímulo aos negócios gigantesco. Aliás, para não ser injusta, ontem o presidente Bolsonaro assinou a Medida Provisória da Liberdade Econômica, que prevê estimular o empreendedorismo. Iniciativas nesta linha é que precisam ser multiplicadas.
IMPACTO
O professor de Finanças do Ibmec/RJ, Gilberto Braga, considera que a aprovação das novas regras da aposentadoria é crucial para o sucesso econômico, mas lembra que mesmo que elas aconteçam no início do segundo semestre, como é esperado, a tendência é que o mercado de trabalho demore um pouco para reagir.
“Historicamente, as demissões e as admissões têm um descolamento de indicadores, como do PIB, de cerca de seis meses. Na hora de contratar, por exemplo, o empresário quer ter a certeza de que os indicadores estão maduros e de que é possível tomar essa decisão. Por isso, o impacto de uma reforma não é tão imediato nas contratações. O efeito principal dele é na retomada da confiança.”
O pesquisador associado do FGV Ibre e do Idados, Bruno Ottoni, cita um outro desafio que haverá pela frente: o da disputa acirrada pelas vagas que irão surgir assim que o mercado demonstrar alguma reação. Com um volume muito grande de desempregados, ocupar um posto de trabalho será tarefa árdua e deverá acontecer primeiro entre as pessoas com maior nível de escolaridade e qualificação.
Surge aí uma grande preocupação: a de que os mais pobres, mais jovens e os que estão mais tempo sem emprego são os que tendem a permanecer sem encontrar oportunidades, um cenário que merecerá a atenção dos entes públicos. Por isso, desde já, é importante que sejam estudadas alternativas para requalificar e ajudar esses trabalhadores a se reinserirem no mercado, mas que antes precisa reagir.