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Sextas Crônicas

Hoje é o dia perfeito para mudar algo para sempre

Pequenas alterações na rotina podem produzir grandes mudanças. Parece pouco, mas a partir do resgate da leitura de livros físicos, comecei a lembrar mais dos meus sonhos

Publicado em 26 de Julho de 2024 às 02:00

Públicado em 

26 jul 2024 às 02:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Durmo tarde. Gosto de ler um pouco antes de dormir, quando tudo na casa – e fora dela - silencia. Dormir tarde não é um bom hábito para quem também ama a luz incomparável dos dias que amanhecem solares. Para fugir das telas azuis e das armadilhas do universo digital, passei a ler apenas livros físicos antes de dormir. Abandonei a leitura noturna de e-books para construir uma nova prática de sono e sonhos.
Pequenas alterações na rotina podem produzir grandes mudanças. Parece pouco, mas a partir do resgate da leitura de livros físicos, comecei a lembrar mais dos meus sonhos.
Foi um sonho que me fez ver com melhores olhos o filme “Dias Perfeitos”, do superpremiado diretor alemão Wim Wenders. Todo mundo parece que amou o filme, mas eu confesso que não me apaixonei assim de imediato. Precisei sonhar com Tóquio – uma cidade que eu não conheço, mas fez parte dos meus sonhos da adolescência – para despertar memórias que eu guardei ao assistir ao filme e nem havia me dado conta.
Cinema
Filme "Dias Perfeitos" Crédito: Divulgação
Talvez seja este mesmo o papel da arte. Esgueirar-se por frestas indefesas para provocar e produzir instantes capazes de nos transformar.
A rotina de Hirayama, que trabalha limpando banheiros em Tóquio, é quase ritualística e as riquezas envolvidas nela não estão aparentes para olhos apressados. É preciso olhar e olhar de novo. Como faz Hirayama, sem pressa.
Criar rituais de cuidado, com a gente, com as coisas, com o outro, nos pacifica.
No mesmo parque, sob a mesma árvore e sempre no mesmo horário, com uma câmera analógica, o homem faz registros das folhas sob a luz do sol. Jamais será a mesma cena. O vento muda a forma como as folhas se movem, o sol incide diferente, a velocidade do dedo no botão de captura da câmera muda, o olhar muda. Todas as fotos são diferentes, como são os instantes.
Hirayama deu a Koji Yakusho o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes 2023. Aprendi com ele, mas nem sabia que estava aprendendo, sobre “Komorebi”, termo japonês que traduz o efeito da luz solar filtrada através das folhas das árvores. Parece simples, mas é um conceito complexo e abrangente, que inclui beleza, serenidade, contemplação, contentamento. É a percepção de um instante.
O filme é para olhos atentos. Além das personagens humanas que interagem com Hirayama, existem o sol, as folhas, as músicas, os livros, a luz. Nada está lá por acaso. Eu estava desatenta. Voltei e revi. Paradoxalmente, meu instante de despertar veio dentro de um sonho.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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