Em Davos, o presidente Jair Bolsonaro perdeu a oportunidade de dizer a que veio seu governo – além dos retrocessos prometidos na educação, direitos humanos, saúde etc. Seu discurso foi vazio de conteúdo e pleno de generalidades.
Dizer que “gozamos de credibilidade para realizar as reformas que o Brasil precisa e que o mundo espera” é vago. Quando indagado sobre quais, resumiu-se a dizer da Previdência e tributária. Por que deixou de dizer que a reforma da Previdência que ele propõe mantém privilégios – nos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo –, e principalmente de militares?
Por que omitir que a reforma tributária pensada por seu governo aprofunda os privilégios de rendas financeiras quando comparadas àquelas do trabalho, além de tornar a estrutura tributária ainda mais regressiva do que é hoje?
Certamente essas reformas estão longe do que o Brasil precisa para diminuir suas desigualdades entre pessoas, extratos sociais e regiões. A parte do mundo que as espera por elas é diminuta – ínfima mesmo! – parcela essa que se locupleta de ganhos patrocinados pela financeirização mundializada e que faz crescer cada vez mais o capital improdutivo.
Colocando-se na vanguarda da defesa acrítica do agronegócio, reafirmou que o setor “cresce graças à sua tecnologia e à competência do produtor rural”. Deveria ter explicitado que a tecnologia é gerada graças à Embrapa. Na mira dos privatistas, conhecimentos acumulados nessa empresa genuinamente nacional - com fortes vínculos de cooperação com centros de pesquisa mundo afora - correm sérios riscos. Riscos de ser entregue a estrangeiros tal qual acontece com tecnologias de exploração de reservas no pré-sal e de produção de aeronaves.
Falar em “compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico” é genérico porque biomas inteiros e comunidades nativas correm riscos em razão do agronegócio. Fala vazia porque em bacias como a dos rios Doce e São Francisco crescem em perdas ambientais, sociais e econômicas em função da forma como empresas, tais como a Vale, exploram nossos recursos minerais. Mineradoras – a exemplo do agronegócio – que receberam compromisso do presidente de flexibilizar a legislação ambiental. Flexibilização que ampliará ainda mais as chances de crimes contra seres viventes, como os ocorridos em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, varridos e soterrados na lama.
Lama que turva a imagem do Brasil no exterior, que destrói vidas e que nos empobrece em nossa humanidade.