Seja a partir de quando se quiser marcar os últimos 365 dias no Brasil, eles se caracterizaram por tecimento político singular e por resultados que nem otimistas puderam ousar pensar há menos de três meses. Daí o "eitcha" para o ano que chega ao fim.
Eitcha pelas costuras políticas que foram para muito além de acordos entre lideranças partidárias historicamente adversárias . Elas ganharam corpo no medida em que uma ampla frente da sociedade brasileira – de entidades da sociedade civil a profissionais liberais; de indivíduos a representações corporativas; de quem representa o que há de mais sofrido e negligenciado na história do país a grupos acadêmicos – resolveu dar voz a um sentimento de basta preso na garganta. Basta de barbárie; basta de desrespeito à ordem social construída; basta de agressão a princípios básicos de humanidade e de consideração para com a natureza; basta de colocar a nação como pária no mundo.
A soma de bastas levou a um resultado eleitoral que demonstrou que a maioria do povo brasileiro quer paz, dignidade e soberania; quer democracia; quer instituições que a representem e que se suplementem na construção de um Brasil mais justo e fraterno. Daí a uma sensação de alívio com relação a tudo que podia ter dado errado, mas que deu certo, foi um pulo.
Um pulo para o reconhecimento do mundo que o Brasil tinha voltado a ser protagonista de uma agenda que interessa à humanidade e que entende a gravidade das crises climáticas e dos riscos crescentes à biodiversidade. Protagonismo que ganhou forma e conteúdo com a presença e fala de um presidente eleito e que passou a ser identificado como mandatário de um país que saía das trevas na qual foi colocado por desrespeito sucessivos à ordem democrática no pós-eleições de 2014.
Um pulo para que uma promessa de campanha – colocar os pobres no orçamento – se tornasse compromisso de todo o governo em construção: do escolhido para ocupar a pasta da fazenda (geralmente concentrado em questões do equilíbrio fiscal) e ao que vai liderar a da defesa (cujo foco normal é no armamento para garantir a soberania nacional).
Constatar que com exclusão social inexistem contas equilibradas e soberania passou a dar forma e conteúdo a todas as negociações com vistas à gestão que começa oficialmente em 1º de janeiro, mas que teve início logo após a proclamação do resultado eleitoral. Isso tanto por virtude do presidente que chega quanto por omissão do que foi embora antes do término oficial do mandato.
Presidente que chega pronto para o jogo democrático de negociar com adversários eleitorais na busca de construir consensos políticos. Consensos políticos em torno de uma nova configuração do necessário equilíbrio fiscal que precisa conviver com o compromisso nacional de inclusão social. Incluir socialmente para além de falcatruas eleitoreiras na busca de votos dos que foram desconsiderados pelo governo federal desde 2016.
Inclusão para muito além da PEC da Transição passa a ser um passo firme no sentido do Brasil voltar a ter uma agenda social abrangente. Agenda que inclui a universalização da saúde, da educação, da cultura; e que contempla trabalho, renda, habitação, meio ambiente, dentre outros, como direitos fundamentais de cidadania.
Passos dados que levam a acreditar na possibilidade de superar novos desafios. O de ampliar os apoios junto a quem preferiu a agenda do candidato derrotado e que tenha disposição para experimentar uma compatível com soberania nacional através do que o Brasil tem de melhor: sua gente e suas riquezas naturais.
O desafio de um país com agenda interna de inclusão e com uma pauta externa de protagonismo. No enfrentamento necessário dos riscos sistêmicos pelos quais passa a mundo – armamentos, aquecimento global, biodiversidade, contaminação de seres vivos, alimentos, água e energia; seja no estabelecimento de uma agenda de convivência pacífica entre os países sem as permanentes buscas de superar conflitos através de guerras.
Tudo isso e muito mais sem bravatas do passado como as recorrentes ‘gigante adormecido’ e ‘país do futuro’. Sem patriotadas, mas com a reconfortante sensação de que no presente o que vem pela frente é melhor do que se podia ousar querer no passado.