Num mundo de oito bilhões de pessoas se locomovendo diariamente, torna-se impossível segregar as possibilidades de modais de transportes disponíveis. A saída à vista é o compartilhamento do espaço público. Cada estilo merece oportunidade de ter seu ambiente respeitado. Não se trata de uma solução mágica, como alguns teimam em atinar. Apenas usar tintas e placas para delimitar territórios não resolve a questão. Ao contrário, compartilhar exige ajustes na infraestrutura, normas, fiscalização eficaz, educação e uma nova cultura. Assim, despertamos para complexidades que as contingências apresentam.
Trabalhar com performances dinâmicas de deslocamentos e diversidade de intenções propõe critérios, metodologia, IoT (internet das coisas), diligência e paciência. Discursos hipnóticos e insurgentes não bastam. Por ora, a rua é o principal ativo de uma cidade. Ratear espaços por “modos” de utilização requer ações que mexem diretamente na zona de conforto das pessoas. Indivíduos não gostam de mudanças e uma via alterada, apesar do bem maior, é sempre pauta para protestos. Natural!
Por isso, o desafio será conciliar técnicas com expectativas. Eventualmente, o risco é testar a humildade de saber voltar atrás. Mesmo exemplar, uma equipe técnica não pode ignorar a opinião de um morador antigo que sabe mais sobre o lugar do que os autores de um projeto. É um estímulo que convém compreender: o saber empírico que vem da vivência.
Contudo, o compartilhamento há de ser um redimensionamento sensato do espaço público. Vontade política, disciplina e resolução deverão convergir. Envolverá solidariedade, segurança e trafegabilidade num só abraço. Olhares em movimentos permanentes são exigidos para acompanharem a motilidade dos polos geradores de tráfego. Viagens curtas ou longas, tanto faz se a trabalho ou lazer, devem ser entendidas e respeitadas em suas conveniências.
O incessante excesso de ocupação das vias sugere compartilhamentos regulamentados e monitorados com ferramentas eficazes de controle de conduta. As regras hão de ser claras, pois sem normatizar não se pode fiscalizar. O conceito de uma política de espaço compartilhado precisa ser assimilado por todos.
Sabe-se que nosso modelo político se exauriu. É visível a descrença do povo quanto ao trabalho e atuação dos políticos. Mas a pior política ainda é a omissão. Temos que persistir com ensino inteligente, emblemático, capaz de despertar e incorporar nas pessoas a noção de repartir em sã consciência. Saber que somos parte integrante desse processo de humanização da circulação pela cidade é fundamental. A dedução de que somos responsáveis pela construção de um trânsito seguro será imediata. Mobilidade urbana é um canteiro de obras permanente.
*O autor é especialista em Administração Pública, Gestão de Cidades e Gerenciamento de Projetos