Acordei sobressaltada: Mataram a vereadora. Quem? Marielle! Vereadora carioca que denunciava abusos e mortes na favela do Acari, no Rio de Janeiro. Um tiro no escuro, uma emboscada, mais uma vida que se foi. Lá fora, o tempo está chuvoso e bate uma atmosfera reflexiva tal como um raio que traz lampejos de luz à escuridão.
Penso no aumento do feminicídio nos últimos anos, sobretudo, neste mês de março dedicado às mulheres. Foram 947 mulheres assassinadas no Brasil em 2017, e, no Espírito Santo, o índice é o maior do Sudeste (2 mortes /100 mil habitantes), segundo a Secretaria Estadual de Segurança (Sesp) e informações de A GAZETA de 09/03/2018.
As imagens das inúmeras mulheres assassinadas eclodem em rostos estampados diariamente na mídia. Corpos que se transformam em números e faz elevar progressivamente as estatísticas de crimes violentos contra a mulher. Esta condição traz, inevitavelmente, uma profunda melancolia. Perde-se a conta de quantas já se foram: Marielle, Danielle, Milena, e tantas outras.
Vidas, histórias e dramas que até então desconhecíamos, mas que se encerram estupidamente em curtas trajetórias, onde a dignidade da mulher é perpassada por atos de crueldade e covardia. O feminicídio aumenta e redobra-se a atenção sobre a questão.
Ao partir para o enfrentamento em defesa da causa, faz-se jus às vidas precocemente ceifadas. Protestos surgem nas redes sociais e em manifestações nas ruas. Em todos os lugares, clama-se por justiça, por mais políticas de prevenção e de assistência às famílias no combate à violência.
Nós, mulheres, desdobramo-nos entre tarefas domésticas e agendas de trabalho. Acordar, cuidar, circular, trabalhar. Uma rotina repetitiva, por vezes, extenuante. À noite, vem o cansaço. Por vezes, o sono não vinga. Acode-se um filho doente, um pai ou uma mãe idosa. Apesar de, prosseguimos com sonhos e projetos de vida, porque este é o movimento que nos motiva para além do cotidiano doméstico.
Porém, ante a estupidez de vidas interrompidas, torna-se urgente parar e refletir o contemporâneo dessa condição. Para muitos, a repetição corriqueira dos crimes, mesmo os mais hediondos, de tão frequentes, caem no “comum”. Para nós, este comum choca e amedronta, aquieta-se e ressurge novamente com força todos os dias. O slogan que impulsiona a ideologia modernizante é ”vida que segue”, tal como uma marcha impositiva que faz realizar o cotidiano.
A violência enrijece o sensível? A maturidade ensina a resiliência? O gozo, ora sofrido, ora feliz, apaga-se com o silêncio dos corpos? Com ou sem batom, sigamos sujeitas à fatalidade do acaso, sem antes não deixar de romper as lágrimas que driblam a dor, por entre palavras que quase não mais dizem nada. E avancemos pela causa de centenas de mulheres que fizeram calar os seus gritos e não mais podem nos acompanhar.
*A autora é arquiteta urbanista