“Cara, tem certeza (que) Andrielly morreu?” é a pergunta chocante feita pelo principal suspeito da morte da jovem, Rubens Almeida Dias Júnior, numa troca de mensagens com o pai da vítima, após o crime. Num ambiente doméstico violento, o próprio companheiro se mostra incapaz de enxergar a gravidade do seu comportamento, baseado numa agressividade considerada normal. Impressiona-se quando percebe que pode ter ido longe demais. Machismo puro, em sua definição mais completa.
A dúvida do suspeito joga na cara, sem meias palavras, a banalização das agressões sofridas por mulheres no dia a dia. Poucas vezes é possível ter acesso a um retrato tão nítido da violência doméstica, tão silenciada pelo medo e pelas convenções sociais que ainda colocam o sexo feminino em condição de inferioridade.
É mais um caso de um algoz (não necessariamente quem mata, quem agride também o é) que divide o mesmo teto de sua vítima. A justificativa para a briga, segundo o suspeito, foi Andrielly ter falado de um ex-namorado. A jovem foi encontrada com um corte no pescoço possivelmente feito com o fio do carregador de um celular. Uma barbaridade que, se confirmada, caracteriza um caso de feminicídio. Pior: Rubens já tinha um mandado de prisão aberto por violência doméstica, após denúncias de uma ex-companheira. Mais uma vez, a impunidade fez uma vítima.
Não se pode minimizar esse tipo de crime, que se repete num ritmo inaceitável no Espírito Santo. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, o caso mostra o quanto ainda precisa ser feito por uma sociedade com mais igualdade entre os sexos. Uma cultura de respeito ao papel feminino só é possível se acompanhada de políticas públicas para frear tanta brutalidade. Não há meio-termo. Mulheres precisam ser encorajadas a denunciar essa opressão, sem temer represálias. Nenhum tipo de violência pode ser considerada normal, dentro ou fora de casa.