Que o carnaval é a festa da fantasia, isso todo mundo sabe. Em 2018, porém, a mágica resolveu dar lugar à realidade, e Mangueira, Tuiuti e Beija-Flor optaram por politizar por inteiro seus desfiles.
As críticas ácidas e as ironias típicas do samba explodiram nas redes. Da noite para o dia, as escolas se tornaram símbolos do combate à corrupção, pilares da justiça e voz do povo. O fato, contudo, é que o show não passou de um espetáculo de hipocrisia.
A Mangueira dedicou ao prefeito Marcelo Crivella seu enredo e um boneco de Judas, criticando o corte de verbas sofrido pelas agremiações, que levavam, cada uma, R$ 2 milhões da prefeitura nos tempos de Eduardo Paes. A ferrenha oposição, porém, faz lembrar a eleição de 2016, quando o presidente da verde e rosa, Chiquinho da Mangueira, fez palanque para Crivella e foi cabo eleitoral por toda a comunidade. “O mundo do samba é 10”, disse à época.
Já a Paraíso de Tuiuti, que no ano passado causou um acidente com mais de 20 feridos e, curiosamente, não foi rebaixada após um acordão de bastidores, refletiu sobre os 130 da Lei Áurea. Ao fim, um vampiro com a faixa presidencial ironizou Michel Temer, e a reforma trabalhista foi apresentada como um resquício da escravidão.
Não bastasse tal alucinação intelectual da escola, um fato veio à tona: embora se diga defensora dos direitos trabalhistas, a Tuiuti, em 2017, contratou apenas três funcionários na CLT, sendo desses dois jovens aprendizes. Será que um único trio montou todo o espetáculo?
Por fim, a campeã Beija-Flor detonou os males que assolam o Brasil. Seu presidente, porém, Anísio Abrahão, possui nas costas condenação de 48 anos e 8 meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha pelo envolvimento com jogo do bicho, suborno a policiais, compra de juízes e alguns milhões lavados na escola de samba. Com a família envolvida na política nacional e federal há 40 anos, Anísio achou devido atacar os crimes de colarinho branco.
Hipocrisia: esse foi o enredo que tomou a avenida no Rio. E para ele, e toda a cegueira popular, só há uma nota: 10, nota 10!
*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia