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Especial Palácio Anchieta - 470 anos
Em diário, Dom Pedro II narrou os 15 dias que ficou no Espírito Santo Arte Geraldo Neto
Visita ao ES

Diário de Dom Pedro II: as impressões do imperador ao visitar Vitória em 1860

Para o imperador, discursos de autoridades eram sofríveis e capixabas eram acanhados. Rixas políticas e necessidades estruturais em Vitória também foram observadas por ele

Rafael Silva

Repórter de Política

Publicado em 24 de Julho de 2021 às 02:04

Publicado em

24 jul 2021 às 02:04
Especial Palácio Anchieta - 470 anos
Em diário, Dom Pedro II narrou os 15 dias que ficou no Espírito Santo Crédito: Arte Geraldo Neto
Anunciada em 1860 pelos jornais e revistas do Espírito Santo como um dos eventos mais importantes do Estado até ali, a visita de Dom Pedro II à até então esquecida província capixaba foi registrada em um diário, escrito pelo imperador durante os 15 dias que passou nestas terras. Na caderneta, Dom Pedro II, àquela época com 34 anos, anotou suas impressões não só da sociedade capixaba do período, como das primeiras colônias de imigrantes e dos povoados indígenas no Estado.
Antes do imperador, a última vez que um chefe de Estado havia passado pelo Espírito Santo tinha sido 167 anos antes, em 1693, quando o então governador-geral do Brasil, Antônio Luiz Gonçalves da Câmara Coutinho, se hospedou no Palácio Anchieta – que àquela época era ainda um colégio de jesuítas. O prédio foi fundado pelos religiosos em 25 de julho de 1551 e completa 470 anos em 2021. 
Para se ter uma dimensão do caráter da visita, foram investidos 22 contos de réis, cerca de um terço da receita da província, nos preparativos para receber o imperador. A maior parte desse dinheiro era de uma "vaquinha" feita por quatro barões, dois deles de Itapemirim e outros dois de São Mateus. Comparando à receita atual do Estado, um terço da arrecadação capixaba equivale, em 2021, a R$ 6,2 bilhões.

1/3 da receita

Equivalente a 22 contos de réis, foi o custo os preparativos da visita do imperador
Apesar da quantia, o imperador não ficou impressionado a ponto de registrar elogios em seu diário. Em vez disso, as anotações de Dom Pedro II sugerem certa frustração ao chegar ao Estado. O relato do primeiro dia dele na Capital traz observações de discursos "sofríveis" por parte de autoridades locais e de moradores desinteressados na visita.
"26 de janeiro de 1860. Desembarque ao meio-dia. Um coral cantava na igreja do Colégio dos Jesuítas, hoje Palácio. Sermão sofrível do Vigário de Aracruz. Parada sob o comando do Monjardim, apresentando-se menos mal a Guarda Nacional", escreveu o imperador.
"Pouco ou nenhum entusiasmo dos capixabas, aliás, capixaba significa roça em tupi. Eles demonstram acanhamento, acompanhado de curiosidade"
Dom Pedro II - Imperador do Brasil
Em sequência, os relatos – anotados a lápis e muitas vezes com o imperador no lombo de cavalos ou no balançar de canoas, o que torna muitas palavras ilegíveis – registravam a rotina de Vitória, que naquela época contava com cerca de 5 mil habitantes, em um território que estava incluído o que hoje são os municípios de Cariacica, Serra e Vila Velha. Inclusive, as primeiras fotografias de Vitória, registradas pelo fotógrafo francês Jean-Victor Frond, foram feitas a mando do imperador.
A primeira fotografia do Palácio Anchieta, registrada em 1860, pelas lentes do fotógrafo Jean-Victor Frond
A primeira fotografia do Palácio Anchieta, registrada em 1860, pelas lentes do fotógrafo Jean-Victor Frond Crédito: Jean-Victor Frond
As anotações de Dom Pedro II, segundo o Museu Imperial, onde está exposto o diário do imperador, eram uma espécie de rascunho, aos quais ele recorria antes dos discursos.
Na análise do historiador Paulo Stuck Moraes, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Dom Pedro II pouco se importava com a bajulação dos mais nobres da cidade e dava maior atenção para questões estruturais das cidades que visitava.
"A impressão que eu tenho, pelo diário dele, é que ele estava mais interessado nas condições de vida do povo mesmo. Ele visitou escolas e hospitais, que, naquela época, eram mais enfermarias do que hospitais propriamente ditos", afirmou Moraes.
"Parecia ser alguém preocupado com a parte social. A pompa da recepção parecia que não o empolgava. Ele participava porque era um dever de Estado"
Paulo Stuck Moraes - Historiador
Dois dias após sua chegada, Dom Pedro II partiu em viagem pelo interior. Foi às colônias de imigrantes em Santa Leopoldina, Rio Novo do Sul e Santa Isabel (hoje Domingos Martins); às vilas de Viana, Serra, Santa Cruz (hoje Aracruz) e Reis Magos; além dos povoados em Linhares, Guarapari, Benevente (atual município de Anchieta) e Itapemirim.
No final das contas, durante os 15 dias em que Dom Pedro II ficou no Estado, quem acabou desfrutando do Palácio Anchieta foi a esposa do imperador, Teresa Cristina. Enquanto ele viajava aos povoados do Estado, a imperatriz consorte ficou hospedada em Vitória.
Desenho do Cais do Imperador no dia da visita de Dom Pedro II, extraído do livro
Desenho do Cais do Imperador no dia da visita de Dom Pedro II, extraído do livro "A Viagem de Pedro II ao Espírito Santo", de Levy Rocha Crédito: Reprodução/Viagem de Pedro II ao Espírito Santo
"A imperatriz tinha certa dificuldade para andar e mancava de uma perna, seria doloroso para ela acompanhar o imperador na viagem. Boa parte do trajeto foi feita em canoas, a cavalo, em estradas no meio do mato e, algumas vezes, em locais que nem os cavalos passavam. Quem acabou aproveitando mais o Palácio foi ela", contou Moraes.

RIXAS DO ES FORAM OBSERVADAS POR DOM PEDRO II

Do clima na cidade, o imperador percebeu, logo no primeiro dia, as disputas entre os membros dos dois partidos da época: o partido Conservador, que apoiava a família real e o sistema escravista, e o partido Liberal, defensor do fim da escravidão. Isso, em tese, já que, naquele período, as rixas não passavam de duelos locais pelo poder.
"As intrigas em Itapemirim, segundo o Juiz de direito Costa Lima, estão cada vez mais acesas depois do impresso atacando o Barão de Itapemirim, se atribui ao padre Pinheiro (Lado de Cristo) que está despeitado por não ter sido escolhido vigário"
Dom Pedro II - Imperador do Brasil
Escritos de Dom Pedro II eram usados para que ele lembrasse de suas observações quando fosse fazer discursos Crédito: Reprodução
Antes da visita, a fim de evitar uma má impressão por parte do imperador, as principais lideranças políticas selaram um acordo de trégua. O objetivo era evitar que as disputas locais atrapalhassem a recepção.
"Essa divisão se tornou ainda maior anos depois, após a Guerra do Paraguai (1864), mas foi feito, sim, um pacto de não beligerância. Em Itapemirim, principalmente, havia uma disputa maior entre o Barão de Itapemirim, que era liberal, e João Nepomuceno Bittencourt, que era conservador. Lá, o imperador preferiu dormir na casa de João Nepomuceno, o que teria irritado o barão, que tinha feito reformas na casa dele para receber Dom Pedro II. Ele morreu anos depois e, na época, diziam que a morte foi por desgosto após esse episódio", narrou o historiador.
Outra rixa observada por Dom Pedro II era a dos próprios moradores de Vitória, que, por conta de uma disputa entre grupos religiosos para saber quem ficaria com uma imagem de São Benedito, dividiram a cidade entre caramurus, que moravam na parte de cima da Capital, e peroás, que moravam próximos ao cais, na parte de baixo.
"Convento de São Francisco. Nesta Igreja está o São Benedito dos Caramurus, que brincando com os devotos de São Benedito do Rosário chamados Peroás (Caramuru e Peroá são dois peixes) deram lugar ambos a que o governo proibisse a saída de ambas as procissões; os Peroás são pobres "
Dom Pedro II - Imperador do Brasil
Palácio Anchieta visto de outro ângulo, também em 1860. Ao fundo o Moxuara, em Cariacica
Palácio Anchieta visto de outro ângulo, também em 1860. Ao fundo o Moxuara, em Cariacica Crédito: Jean-Victor Frond

AS OBRAS PARA A VISITA IMPERIAL

Um ano antes do desembarque de Dom Pedro II, o então presidente da província, Pedro Leão Veloso, cargo que se assemelha ao que hoje conhecemos como governador, deu início aos preparativos para a visita. A principal preocupação era reformar o Palácio para que pudesse receber o imperador.
O antigo colégio dos jesuítas funcionava desde o final do século XVIII como sede do governo, mas a construção estava em condições precárias, com "móveis velhos, goteiras e problemas estruturais em forros e assoalhos", como registra o historiador Levy Rocha, no livro "Viagem de Pedro II ao Espírito Santo", publicada originalmente em 1960.
Além da reforma no Palácio, foram calçadas, pela primeira vez desde a chegada de Vasco Fernandes Coutinho ao Estado, as ruas de Vitória. Um cais, que não por acaso passaria a ser chamado de Cais do Imperador, também foi construído para receber Dom Pedro II. Até a Assembleia Legislativa aproveitou o evento para reformar o salão, onde estava programado um grande baile para o imperador.
"Foi planejada uma grande recepção. Alguns jornais apontavam que o povo não se entusiasmou tanto, mas há quem diga que esses eram comentários de quem era contrário à visita. Como o Estado era um tanto quanto periférico naquela época, quando foi feito o anúncio de que Dom Pedro II passaria por aqui, muitos ficaram surpresos", analisou o vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.

Veja o vídeo sobre os visitantes ilustres que já passaram pelo Palácio Anchieta.

Correção

25/07/2021 - 10:00
Por um erro de digitação, o ano de início da Guerra do Paraguai foi escrito errado. O correto é 1864. O texto foi corrigido.

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