Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Campanha das cores e a política pública de promoção da saúde
Prevenção

Campanha das cores e a política pública de promoção da saúde

Temos hoje mais cores associadas a doenças do que meses do ano que nos permitam, de fato, fazer as associações e os destaques propostos inicialmente

Publicado em 02 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

02 dez 2019 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Outubro Rosa e Novembro Azul Crédito: Divulgação
A campanha das cores, como estratégia de conscientização para a promoção e prevenção da saúde, teve seu início nos anos 90 nos EUA com ações direcionadas inicialmente à detecção de câncer de mama. O mês de outubro, escolhido como o período do ano no qual se envidariam esforços no sentido de alertar a população para a necessidade do diagnóstico precoce passou a ser denominado como “Outubro Rosa”.
De lá para cá, em todo o mundo, ampliaram-se as campanhas baseadas na ideia das cores associadas a meses e à doenças. Setembro Amarelo, Novembro Azul e assim por diante. Fomos, paulatinamente, incorporando doenças e associando-as à meses do ano, no sentido de alertar as pessoas de que era preciso, dedicar alguma atenção à sua saúde.
Temos hoje mais cores associadas a doenças do que meses do ano que nos permitam, de fato, fazer as associações e os destaques propostos inicialmente. São cerca de 30 doenças/campanhas e apenas 12 meses no ano.
Essa sobreposição, associada a outros fatores, acabou por banalizar um conceito, uma ideia, que tinha como objetivo dar ênfase a doenças como o câncer de mama, próstata e tantos outros.
A sobrecarga discursiva é, certamente, condição de esvaziamento de sentido. Laços rosas, azuis, amarelos e verdes, iluminação colorida nos prédios públicos, vão aos poucos sendo vistos com naturalidade sem que nenhuma outra associação seja feita à eles.
Ainda que não fosse essa realidade fática, de perda de sentido atual das campanhas das cores, outras questões deveriam ser por nós avaliadas, especialmente considerando o conceito de políticas públicas e sua finalidade.
Tomemos a campanha do “Outubro Rosa” como parâmetro analítico. O câncer de mama tem se alastrado de forma assustadora em todo o mundo, sendo hoje o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil. Estima-se que só em 2019 , 59700 casos novos serão diagnosticados. O problema tomou dimensões estratosféricas encontrando-se fora de controle das autoridades sanitárias.
Uma campanha de conscientização não tem o condão de resolver o problema. De que adianta conscientizar mulheres da necessidade de fazerem exames preventivos, se não se dá à elas as condições básicas de acesso aos serviços de saúde para que possam diagnosticar precocemente seus tumores de mama ou qualquer outra doença?
Precisamos nos questionar o sentido duplo da campanha.
Para as mulheres que têm acesso a planos ou serviços privados de saúde há a possibilidade de adotarem condutas preventivas que lhes garantirão retirar seus tumores antes que eles se alastrem por seus corpos em metástases que inviabilizarão a cura tão propagada.
Para as demais, as agruras do medo. Verão, certamente, passarem-se longos meses aguardando uma primeira consulta, que lhes dará o papel, salvo conduto para o agendamento de mamografia, sabendo que, depois dos resultados, ainda esperarão, mais alguns meses até conseguirem fazer suas cirurgias.
E, enquanto esperam, convivem com o temor de quem não vê saída, impotentes, conhecendo os riscos de uma guilhotina que sobre seus corpos está a lhes lembrar a implacável diferença entre saber e poder agir e saber e não poder agir, porque o poder público destina seus recursos para outros interesses, talvez, quem sabe, os interesses daqueles que já estão favorecidos com outras benesses públicas.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Irregularidade é atribuída ao período em que o parlamentar era presidente do Legislativo municipal
Vereador é multado por nomear cunhado para cargo em Câmara no ES
Imagem de destaque
Luminol revela manchas de sangue em parede da casa de idoso encontrado morto em Vila Velha
Imagem de destaque
Após anos de tentativas, criança do ES com AME vai receber "remédio mais caro do mundo"

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados