A campanha das cores, como estratégia de conscientização para a promoção e prevenção da saúde, teve seu início nos anos 90 nos EUA com ações direcionadas inicialmente à detecção de câncer de mama. O mês de outubro, escolhido como o período do ano no qual se envidariam esforços no sentido de alertar a população para a necessidade do diagnóstico precoce passou a ser denominado como “Outubro Rosa”.
De lá para cá, em todo o mundo, ampliaram-se as campanhas baseadas na ideia das cores associadas a meses e à doenças. Setembro Amarelo, Novembro Azul e assim por diante. Fomos, paulatinamente, incorporando doenças e associando-as à meses do ano, no sentido de alertar as pessoas de que era preciso, dedicar alguma atenção à sua saúde.
Temos hoje mais cores associadas a doenças do que meses do ano que nos permitam, de fato, fazer as associações e os destaques propostos inicialmente. São cerca de 30 doenças/campanhas e apenas 12 meses no ano.
Essa sobreposição, associada a outros fatores, acabou por banalizar um conceito, uma ideia, que tinha como objetivo dar ênfase a doenças como o câncer de mama, próstata e tantos outros.
A sobrecarga discursiva é, certamente, condição de esvaziamento de sentido. Laços rosas, azuis, amarelos e verdes, iluminação colorida nos prédios públicos, vão aos poucos sendo vistos com naturalidade sem que nenhuma outra associação seja feita à eles.
Ainda que não fosse essa realidade fática, de perda de sentido atual das campanhas das cores, outras questões deveriam ser por nós avaliadas, especialmente considerando o conceito de políticas públicas e sua finalidade.
Tomemos a campanha do “Outubro Rosa” como parâmetro analítico. O câncer de mama tem se alastrado de forma assustadora em todo o mundo, sendo hoje o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil. Estima-se que só em 2019 , 59700 casos novos serão diagnosticados. O problema tomou dimensões estratosféricas encontrando-se fora de controle das autoridades sanitárias.
Uma campanha de conscientização não tem o condão de resolver o problema. De que adianta conscientizar mulheres da necessidade de fazerem exames preventivos, se não se dá à elas as condições básicas de acesso aos serviços de saúde para que possam diagnosticar precocemente seus tumores de mama ou qualquer outra doença?
Precisamos nos questionar o sentido duplo da campanha.
Para as mulheres que têm acesso a planos ou serviços privados de saúde há a possibilidade de adotarem condutas preventivas que lhes garantirão retirar seus tumores antes que eles se alastrem por seus corpos em metástases que inviabilizarão a cura tão propagada.
Para as demais, as agruras do medo. Verão, certamente, passarem-se longos meses aguardando uma primeira consulta, que lhes dará o papel, salvo conduto para o agendamento de mamografia, sabendo que, depois dos resultados, ainda esperarão, mais alguns meses até conseguirem fazer suas cirurgias.
E, enquanto esperam, convivem com o temor de quem não vê saída, impotentes, conhecendo os riscos de uma guilhotina que sobre seus corpos está a lhes lembrar a implacável diferença entre saber e poder agir e saber e não poder agir, porque o poder público destina seus recursos para outros interesses, talvez, quem sabe, os interesses daqueles que já estão favorecidos com outras benesses públicas.