Em 1982, Gerson Camata derrotou Max Mauro por uma diferença de quatro votos na convenção do PMDB para decidir quem seria o candidato do partido na primeira eleição direta para governador desde o golpe de 1964. Enquanto isso, um certo Paulo Hartung se preparava para iniciar a própria trajetória política. Ele e outros companheiros militavam então no Partido Comunista Brasileiro (PCB), abrigados institucionalmente nas fileiras do PMDB.
Foi justamente desse núcleo peemedebista, intitulado Comissão de Mobilização Popular, que partiram os quatro votos decisivos a favor de Camata: Hartung, Fernando Herkenhoff, Berredo de Menezes e Lauro Ferreira Pinto. Naquele ano, Camata elegeu-se governador, enquanto Hartung alcançou uma vaga na Assembleia Legislativa – o primeiro de seus oito mandatos eletivos. Desde então, Hartung passou a tratar Camata como referência e conselheiro político. “Aprendi muito com ele. Foi um professor no início da minha caminhada.” Nesta quinta (27), na despedida ao mestre, o discípulo destacou os cinco bons símbolos ensejados por Camata para os capixabas:
1. Honra ao mérito. De origem humilde, o ex-governador venceu na vida com o próprio esforço, graças à educação que recebeu. “Era uma pessoa de família simples. E conseguiu, pela via dos estudos, ascender como radialista, jornalista, vereador, deputado estadual, federal e chegou ao governo do Estado. Tem um ensinamento aí, principalmente para as famílias mais simples, de que vale a pena a educação como instrumento de igualdade de oportunidades para todos.”
2. Redemocratização. Apesar de ter vindo da Arena, foi muito importante no movimento das Diretas Já. “Foi um homem da democratização do país. Veio para o lado do nosso movimento de oposição e ainda virou o primeiro governador eleito no processo de redemocratização. Esteve junto, desde o início, do movimento do doutor Tancredo, participando ativamente. Foi ele quem organizou o comício das Diretas Já aqui, um comício muito representativo, na Praça Oito.”
3. Autoestima. O jeito alegre e o bom governo de Camata em um momento difícil elevaram a confiança do povo capixaba. “Ele fez um bom governo, realizador. As pessoas olham muito a questão das estradas. Mas a coisa mais importante do governo Camata foi a estrada da autoestima. O Estado tinha emburacado na erradicação dos cafezais e não tinha dado nenhum salto. É ali que você tem uma virada no Espírito Santo e que o capixaba começa a achar que o nosso Estado tinha potencial.”
4. Simplicidade e leveza. Tratava a todos do mesmo jeito. Não era arrogante, orgulhoso nem vaidoso. “Era uma pessoa de boa alma e de bom coração. Dava uma boiada para não entrar em briga boba. Só em briga boa. Ele fez política com classe já naquele tempo. Era uma ação política leve, com inteligência.”
5. Pacifismo. Sabia conviver serenamente com as diferenças políticas e tinha grande capacidade de agregar opostos. Um homem público com tais virtudes faz muita falta nestes tempos de intolerância, violência e ódio político. “Sempre fará falta. Mais ainda numa hora como esta que estamos vivendo no Brasil, de corda esticada, de intransigência enorme, de intolerância que beira o insuportável e de desrespeito com as opções dos outros. Passou a campanha e o cabo de guerra não foi solto. Camata era um homem tolerante, tinha capacidade de conviver com quem pensa diferente. É esse o sinal que precisamos no Brasil hoje.”
Risos entre lágrimas
Camata era um exímio contador de piadas e anedotas. Durante o velório, seus amigos se lembraram de muitas. Para homenageá-lo, recontamos algumas.
Campanha-relâmpago
Em 1961, aos 20 anos, Camata apresentava um programa de rádio. O diretor da emissora decidiu que eles iriam aderir à Rede da Legalidade – campanha liderada por Brizola para garantir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Camata anunciou a adesão no ar. O telefone da rádio tocou e foi atendido pelo diretor. Do outro lado da linha, o então comandante do 3º Batalhão de Caçadores (atual 38º BI), cobrando satisfações. “Isso é coisa do Camata! Foi o Camata!”, justificou o chefe. E a adesão à campanha acabou ali mesmo.
Generosidade dobrada
Em 1979, um grupo de secundaristas foi à Assembleia em busca de ajuda para bancar uma viagem para um encontro estudantil. Chegando lá, encontraram Camata, então deputado federal. Ele reconheceu um dos estudantes como filho de um conhecido. Contribuiu com um determinado valor. Mas recomendou aos garotos: “Digam a todos os deputados que eu dei o dobro disso, assim ninguém vai dar um valor menor”.
Revanche fedorenta
Camata derrotou Max Mauro em 1982, mas na convenção seguinte do PMDB, em 1986, Mauro deu-lhe o troco, derrotando José Ignácio, o candidato apoiado por Camata e pelo então governador, José Morais. Um conhecido conta que foi a única vez que viu Camata irritado de verdade. Não pela derrota. Mas porque alguns mal-educados jogaram-lhe urina.