Gutman Uchôa de Mendonça*
Às vezes, somos acometidos por um estado de perplexidade com notícias que chegam com rapidez fantástica, segundos depois dos acontecimentos. Um dia depois do feriado natalino, após as 16h, quando uma chuva fina começava a cair sobre a cidade, vinha a informação, através do celular, do assassinato do ex-governador Gerson Camata, aquele jovem que veio do interior, da cidade de Castelo, para a cidade grande para ser locutor da Rádio Vitória.
Empurrado pelo programa radiofônico “Ronda da Cidade”, Camata foi eleito vereador de Vitória, elegeu-se deputado estadual, foi deputado federal, governador e, depois, senador por três mandatos.
Afável, disputava com o Chrisógono Teixeira da Cruz, empresário e amigo, quem era o mais “pão duro”. Pagar almoço? Cafezinho? Ambos não metiam a mão no bolso. Conhecido carinhosamente pelos mais próximos como “Italiano”, pela sua descendência, realizou um dos mais importantes trabalhos na construção de rodovias no Norte do Estado, por ser conhecedor das carências da região.
Como deputado federal, teve posição radical contra o regime militar. Com a abertura democrática, foi o primeiro governador do Estado a se eleger pelo voto direto, mas teve um agravante: enfrentar o presidente João Figueiredo (de quem era crítico), que o ignorou, a não ser que fizesse um pedido público formal de desculpas.
Num gesto de grandeza, conta que em “favor do Espírito Santo”, solicitou uma audiência ao presidente e pediu desculpas pelos seus pronunciamentos. Figueiredo prontamente o perdoou e ajudou o Estado. Camata realizou uma administração de sucesso.
Com um cacoete de conversar enrolando uma mecha de cabelo do lado esquerdo da cabeça, Camata era um formidável contador de causos ocorridos na sua administração, principalmente com relação aos mais estranhos pedidos que recebia dos velhos italianos interioranos, remedando-lhes até o sotaque.
Na metade de seu último mandato de senador, deu uma espécie de “encolhida” nas suas atividades. Creiam, Camata deixa um profundo vazio em minha vida. Gostava mais do Italiano do que ele podia imaginar. De vez em quando ligava para mim, para comentar meus escritos: “Alemão, você hoje está bravo!”. Infelizmente, Camata não ficou livre da bestialidade humana. Não merecia tal fim.
* O autor é jornalista