Um governante, ensina Maquiavel, para ser exitoso, deve procurar ser amado ou temido por seu povo – evitando a todo custo o ódio dos seus governados. A comoção gerada pelo assassinato de Gerson Camata (MDB) ontem e o conjunto de declarações de pesar que se sucederam à morte do ex-governador deixam uma certeza: Camata era um dos líderes políticos mais amados pelo povo capixaba, talvez o mais amado de todos.
Os diversos depoimentos convergem na descrição de Camata como um homem do bem e da paz, afável, cordial, de trato fino e jeito suave – contrastando com o imponente vozeirão de radialista que lhe abriu as portas das famílias capixabas e começou a pavimentar sua popularidade, nos anos 1960, então à frente do programa “Ronda da Cidade”.
Era boa-praça, simpático, carismático. E, para completar o combo de sedução, um exímio contador de causos. A perversidade extra do crime que chocou o Espírito Santo ontem é que uma pessoa tão amada e estimada tenha perdido a vida pelo que, ao que tudo indica, foi um crime motivado pelo ódio. A banalização da vida e a crueldade que tem se apoderado das relações humanas vitimaram um símbolo da cordialidade e da tolerância política, um homem que sempre soube se relacionar bem com todos, incluindo os (muitos) amigos e os (poucos) adversários. Um velho hábito do ex-governador simboliza bem sua facilidade em se fazer íntimo dos interlocutores: o de fumar o cigarro alheio, como lembra o deputado federal Lelo Coimbra.
“Camata sempre foi um cara muito cordato, lidava bem com as diferenças. Ele sempre foi da paz. Mesmo nos momentos mais tensos, Camata nunca expressava mal-estar nem irritação. Era uma figura dócil, muito cortês no relacionamento. Ele fumava, mas não levava o cigarro. Sempre fumava o cigarro de alguém. Era aquela figura que chegava suave, nunca chegou esbarrando”, conta o presidente estadual do MDB, que também garante: embora aposentado (invicto) das disputas eleitorais desde que deixou o Senado, em 2011, Camata manteve intensa militância política e partidária até o fim da vida. A política estava no seu sangue. Mas essa trajetória partidária não começou no MDB.
A estrada de Camata
Nascido em Castelo, em uma típica família de descendentes de italianos no interiorzão do Estado, Camata iniciou sua trajetória política em 1967, aos 25 anos, como vereador de Vitória, guindado pela popularidade conferida a ele pelo programa policial. Tanto esse como os mandatos parlamentares seguintes, nos anos 1970, ele os exerceu pela Arena, o partido oficial do regime militar. Essa marcante característica de Camata é destacada pelo historiador Estilaque Ferreira: ele nunca foi um político de oposição. Ao contrário.
“O governismo marca sua trajetória, assim como o conservadorismo, seguindo a tradição dos imigrantes italianos. Foi um político que se forjou no apoio civil ao governo militar. Fez sua carreira à sombra do regime, como vereador e depois como deputado pela Arena. São esses os dois elementos fundamentais que vão definir sua trajetória política”, conta o historiador. Ele ainda ressalta a extrema facilidade de comunicação de Camata. “Era um sujeito extremamente afável, de bom trato e respeitoso com as pessoas. Era gente boa!”
No início dos anos 1980, a ditadura já estava em crise, sem respostas para os profundos problemas sociais gerados pelo crescimento urbano desordenado nas metrópoles. Nesse contexto, Camata surge como o cara certo na hora certa. Seu discurso pragmático – sensível aos dramas sociais e com alguns traços de populismo – soou como música de rádio AM para aquela massa de cidadãos “desterritorializados”: famílias de trabalhadores que haviam migrado do interior para a Grande Vitória e que formam então um eleitorado desenraizado, carente de uma gama de serviços básicos e portanto muito receptivo àquele tipo de discurso.
Camata foi o líder carismático que eles procuravam. Com o pluripartidarismo já de volta, migrou da Arena para o PMDB, derrotando, na convenção partidária, Max Mauro (que o sucederia no governo), com votos decisivos do grupo de Paulo Hartung. Mauro conta que passou a apoiar Camata tão logo perdeu a convenção.
“Camata tinha muita densidade eleitoral, uma popularidade acentuada em todas as suas eleições. Nunca perdeu nenhuma eleição que disputou. Declarei apoio a ele imediatamente após perder a convenção. Eu tinha por ele muita estima.”
Na eleição, Camata atropelou Carlito von Schilgen. No governo, abriu estradas – seguindo a máxima de Washington Luís. A marca registrada de seu governo foram as muitas estradas vicinais construídas e asfaltadas pelo interior do ES. “Foi um fazedor de estradas. Era um homem essencialmente do interior e fez um governo essencialmente voltado para o interior”, define Estilaque. Talvez por isso fosse tão querido sobretudo pela gente do campo.
Camata foi catapultado até o fim da carreira pelo capital político sem paralelo resultante de seu governo muito bem avaliado pelo povo – embora curto: não chegou a quatro anos. Um capital inesgotável, que ele leva para o túmulo e que lhe garantiu as três eleições sucessivas ao Senado, em 1986, 1994 e 2002.
Em 1988, como deputado federal, Vitor Buaiz (que também chegaria ao governo) conviveu com Camata e sua mulher, Rita Camata, na Assembleia Constituinte. Ele homenageia o ex-colega: “Camata foi uma das figuras mais importantes da vida capixaba nos últimos 40 anos. Ele sempre demonstrou muita paixão e muita vontade de fazer política. Era um político vocacionado. A sua vida política era dedicada ao Estado e ao povo capixaba. Não havia nenhuma imagem de Camata que pudesse dizer que ele tivesse adversários políticos”.
Agora o vozeirão de Gerson Camata não será mais ouvido. Ou se fará ouvir