Nem os mestres da ficção seriam capazes de desenvolver personagens com ambições tão explícitas, capazes de qualquer coisa pelo poder. A trama, lamentavelmente da vida real, que envolve os vereadores da Serra desde a eleição para a Mesa Diretora de janeiro do ano passado mostra uma capacidade de mobilização extraordinária dos parlamentares. Pena que seja estritamente na defesa dos próprios interesses. O bem comum, que deveria movê-los, não chega a aparecer nem como figurante.
O boicote que provocou a paralisação das votações enquanto os dois grupos se digladiavam (e assim continuam, só fazendo menos barulho) pelo comando da Câmara foi uma excrescência legislativa que diz muito sobre as verdadeiras prioridades daqueles que foram eleitos para servirem à população. E ainda há o risco de as pautas voltarem a ser travadas pelo esvaziamento de sessões, com a proximidade de uma nova eleição da Mesa Diretora.
Não são somente as confusões e artimanhas - com sessões paralelas em sítios, alianças feitas e desfeitas e pelejas judiciais - que causam constrangimento. O vexame ganha mais força com as denúncias de improbidade administrativa que rondam os vereadores, sem falar no afastamento de Neidia Pimentel, figura central das disputas políticas, após denúncias de participação em esquema de rachid, peculato e associação criminosa.
Quem escreveu o roteiro que guia a Câmara da Serra merece um prêmio, com um enredo que coleciona tantos ardis e reviravoltas, dignos de um “House of Cards”. A longa primeira temporada parece longe do fim, para tristeza de cada um dos 502 mil moradores do município, que mereciam estar mais bem representados. É uma vergonha que aqueles que foram eleitos para fiscalizar tenham que ser fiscalizados tão de perto.