O Brasil tem muito “doutor”, muito “funcionário”, muita “professora”. Se eu fosse o Getúlio, mandava metade dessa gente pra lavoura. Mandava muita loura plantar cenoura, e muito bonitão plantar feijão, a chefia da mamata eu mandava plantar batata.
Fiel ao carnaval, onde ninguém fala muito sobre, mas entra em ação de tamborim em punho, eterniza-se a marchinha dos anos 40, quando o povo ia para a rua criticar sob a forma de anedotas e músicas. Diz que um presidente dos Estados Unidos, o Truman, veio ao Brasil não fazer nada, o que é natural. Saudou o mandatário nacional “How do you do, Dutra?”. A resposta veio em cima: “How Truiutru, Truman?”.
Os americanos mandavam como mandam no preço dos produtos dos outros e haviam decretado o ridículo valor a pagar pelo nosso cafezinho. Lamartine Babo, de lápis e guardanapo na mão, mandou esta e espalhou pelo carnaval: “Se o Tio Sam não quer comprar café, como é que é? Mas se o titio isso não resolver, yes nós temos ‘banana’ pra dar e vender”.
Não poderíamos, nos anos 50, acho, ficar fora da arenga sobre Cuba, que segundo a propaganda nazicapitalista possuía foguetes mortais, devoravam criancinhas, o mambo dava câncer, e o Brasil estava em perigo. Queriam nos empurrar na paranoia deles lá. Isso foi tema dos politizados blocos de rua: “Cuba vai lançar foguete, Brasil vai lançar também. Lança Cuba lança, quero ver Cuba lançar”.
O nacionalismo ganhava ruas e praças e defendia nossa honra com música, tamborins, surdos, mudos e muita fantasia. Lembro do Oscarito cantando em uma chanchada: “Eu conheci uma espanhola natural da Catalúnia, queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba, carambola, sou do samba não amola. Pro Brasil eu quero ir, pois isso é conversa para boi dormir, pararatibum, bum bum”.
Jucutuquara compareceu através de seu imorrível compositor Valter Pata-Choca, que teve o privilégio de iniciar a luta contra a homofobia. Dizem que era pentassexual e os mimos da turma. Não gostava de concorrência e mandou ver: “Sai daí feiona, sai daí carona, não posso te ver, com essa tua cara nariz de arara que só faz sofrer. Ela vai saindo, vai fingindo que não é com ela. Sai daí Jararaca, cara de matraca, boca de gamela”. Enfiou (epa) no bloco, crítica social contra a iniquidade: “Quem sou eu, pra ir a Guarapari, sou menino pobre vou mesmo pra Camburi”.
O preconceito contra os idosos passava longe nos blocos das pracinhas: “Não quero broto, não quero, não quero não. Não sou garoto pra viver de ilusão. Sete dias na semana eu preciso ver minha balzaquiana”.
Asdrubal, me devolve o trombone.
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista