O que já era ruim ficou ainda pior. Marcado por contrastes históricos, o Brasil não reduziu em nem um centímetro o abismo que separa ricos e pobres no ano passado, interrompendo um processo de queda que seguia desde 2002. Com a estagnação, o país subiu um degrau no ranking e ocupa agora um vergonhoso 9º lugar entre as nações mais desiguais do mundo. Para completar o quadro, o número de pobres cresceu 11% em um intervalo de apenas um ano, somando 15 milhões de brasileiros que vivem, ou melhor, sobrevivem com pouco mais de R$ 200 por mês.
Os dados foram publicados na segunda-feira pela Oxfam Brasil, braço do órgão internacional dedicado ao combate à pobreza. Diante do cenário apresentado pelo relatório, o mais apropriado seria falar em desigualdades, no plural. Além da distância entre ricos e pobres, a realidade nacional mostra ainda disparidades na renda entre homens e mulheres e entre negros e brancos, na representação política e na política fiscal. No levantamento, o Brasil ficou na desconfortável companhia de países como Botswana, Lesoto e Reino de Eswatini (antiga Suazilândia), que enfrentam o descalabro da Aids, com até um terço da população contaminada.
Por aqui, a interrupção da queda da desigualdade é reflexo direto da recessão econômica enfrentada desde 2014, que praticamente dobrou o contingente de desempregados. Mas, se alguns índices apontam que estamos nos afastando da crise, o estudo não é tão animador quanto à reversão do quadro de injustiças, já que a estrutura brasileira não só mantém, como também aumenta as distâncias.
Há dezenas de adversários, mas dois grandes vilões que se não forem combatidos agravarão o quadro: a distribuição da carga tributária e o atual regime de Previdência, cuja revisão patina há anos no Congresso Nacional, bem longe da urgência que o tema merece. O Brasil pesa a mão na tributação indireta, embutida em bens e serviços e repassada indiscriminadamente para ricos ou pobres – o que retroalimenta a desigualdade, já que, proporcionalmente, pessoas de baixa renda pagam mais impostos. Por outro lado, é um dos que menos tributam renda e patrimônio. Já a reforma da Previdência é essencial para desafogar as contas públicas e liberar orçamento para os investimentos e gastos sociais. Não há país que dê certo com tanta desigualdade, porque é ela a raiz de muitos males, como violência, fome, mortalidade infantil e baixos desempenhos educacionais, que afligem especialmente a parcela mais vulnerável da população. Com esses vários elefantes na sala, os diferentes Brasis nunca serão capazes de se conciliar.