Publicado em 29 de agosto de 2024 às 21:40
Nos últimos anos, o debate sobre a regulação e moderação de conteúdo nas grandes plataformas tecnológicas tornou-se cada vez mais acirrado. A pressão sobre essas empresas se mantém alta, e as discussões sobre como devem gerenciar o conteúdo e cumprir a legislação continuam a evoluir.>
Casos recentes, como o confronto entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bilionário Elon Musk, proprietário do X (anteriormente Twitter), e a prisão do fundador do Telegram, Pavel Durov, na França, destacam a transformação crescente na relação entre governos e plataformas digitais, observa o brasileiro João C. Magalhães, professor de Mídia, Política e Democracia na Universidade Groningen, na Holanda, em entrevista à BBC News Brasil.>
Magalhães explica que, antes vistas com mais indulgência, as grandes plataformas agora enfrentam uma abordagem mais crítica das autoridades, especialmente no que diz respeito ao conteúdo em suas redes.>
"A mudança na abordagem governamental é um reflexo da crescente desconfiança pública e da percepção que os conteúdos compartilhados nessas redes contribuíram para graves crises sociais, como a erosão da democracia em vários países”, diz ele.>
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"Não imagino esses sentimentos mudando no curto ou médio prazo.">
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Magalhães observa uma clara divisão na percepção pública: a esquerda critica as plataformas por não moderarem o suficiente, enquanto a direita acusa de moderação excessiva.>
"Essa polarização desgastou a autoridade das plataformas para resolver sozinhas problemas de moderação de conteúdo, como elas faziam antes, e forçou os governos a intervirem mais. Políticos estão cada vez menos dispostos a adotar uma abordagem 'laissez-faire' em relação à regulação das plataformas", explica ele.>
Magalhães lembra que, desde meados dos anos 2010, as plataformas enfrentam pressões da sociedade civil e de governos para controlarem de maneira mais rígida a produção de dados digitais e, principalmente, a liberdade de expressão dos usuários. >
Essas pressões se concretizaram em leis como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR) e a Lei de Serviços Digitais (DSA) da União Europeia estabelecem requisitos mais específicos sobre a gestão de dados e a moderação de conteúdos.>
Até o fim da pandemia do Covid-19, as plataformas responderam a essas pressões e novas leis ampliando suas práticas de moderação e investindo em sistemas automatizados de análise de conteúdo.>
No entanto, Magalhães observa que desde então, as plataformas começaram a questionar a viabilidade desse modelo.>
"O custo financeiro elevado e a complexidade política envolvida na moderação têm levado algumas plataformas a buscar formas de reduzir a politização e encontrar um equilíbrio entre os requisitos regulatórios e a viabilidade econômica", afirma.>
Recentemente, lembra o especialista, o Instagram e o Threads, plataformas controladas pela Meta, decidiram diminuir a amplificação de conteúdos políticos para aliviar as pressões regulatórias e evitar a politização excessiva.>
"É um exemplo de como as plataformas estão tentando equilibrar a moderação eficaz do conteúdo com as pressões regulatórias, ao mesmo tempo em que buscam minimizar os custos", explica Magalhães. >
"Em vez de dizerem ‘não vamos moderar’, esse tipo de medida visa diminuir a circulação de conteúdos que, em geral, forçam essas empresas a tomarem decisões contraditórias de moderação.">
O futuro da moderação de conteúdo nas grandes plataformas de tecnologia permanece incerto, segundo Magalhães.>
Ele ressalta que esse tipo de controle da liberdade de expressão por empresas privadas e globais é historicamente novo, e que não existe ainda um modelo claro de como isso deve ser feito.>
"O dilema das plataformas é como moderar o conteúdo de maneira menos controversa possível, atender às exigências regulatórias, e manter as altas taxas de lucro", diz ele. >
"É uma equação difícil de resolver, um campo de batalha complexo onde regulação, política e dinheiro se entrelaçam", acrescenta.>
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