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Lula costura apoios e corteja centrão contra Bolsonaro no Nordeste

Lula costura apoios e corteja centrão contra Bolsonaro no Nordeste

No momento em que Bolsonaro inicia ofensiva sobre o eleitorado mais pobre do Nordeste, turbinando o programa Bolsa Família,  Lula desembarca na região para estreitar alianças com governadores e traçar estratégias para as eleições

Publicado em 15 de agosto de 2021 às 09:35

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JOÃO PEDRO PITOMBO E JOÃO VALADARES

No momento em que Jair Bolsonaro (sem partido) inicia uma ofensiva sobre o eleitorado mais pobre do Nordeste, turbinando o programa Bolsa Família, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca na região para estreitar as alianças com governadores e traçar estratégias para as eleições de 2022.

O objetivo da viagem é aparar arestas na construção de palanques locais e formar uma base de apoio mais ampla com apoio local de legendas como PSB, MDB, Cidadania, PP e Republicanos. Lula desembarca neste domingo (15) no Recife e fica na região até 26 de agosto, passando por Piauí, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia.

 10/03/2021  - O Ex-presidente poderá se tornar elegível para as próximas eleições após decisão de juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) de anular suas condenações pela Lava Jato.
No momento em que Jair Bolsonaro (sem partido) inicia uma ofensiva sobre o eleitorado mais pobre do Nordeste, turbinando o programa Bolsa Família, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca na região para estreitar as alianças com governadores e traçar estratégias para as eleições de 2022. (Ettore Chiereguini | Estadão Conteúdo)

Entre aliados do ex-presidente, a avaliação é que o apoio sólido dos governadores será crucial para barrar o avanço da máquina federal no Nordeste e atrair localmente apoios fora do campo da esquerda.

"A viagem será um momento de retomar contatos, ouvir opiniões e prestigiar os aliados em seus estados. Cada governador é uma liderança importante em seu estado e, no caso do Nordeste, temos muitos governadores do nosso campo", avalia o senador Jaques Wagner (PT-BA).

Pesquisas apontam que a maioria dos governadores de estados nordestinos têm boa avaliação e está bem posicionada para 2022, seja para concorrer à reeleição, seja para tentar emplacar seus sucessores.

Por outro lado, há uma preocupação com o avanço de aliados de Bolsonaro em suas bases eleitorais, atraindo prefeitos e líderes políticos locais com recursos de emendas parlamentares.

As torneiras abertas têm dado maior musculatura aos partidos do centrão. Nas eleições municipais, por exemplo, PSD e PP se consolidaram entre as siglas com mais prefeitos no Nordeste.

Bolsonaro também tem tentado ampliar sua inserção no eleitorado do Nordeste: tem concedido entrevistas a rádios da região e realizado visitas — na última semana foi a Juazeiro do Norte (CE).

Seu principal trunfo está na criação do Auxílio Brasil, programa que sucederá o Bolsa Família com a ampliação do valor médio pago às famílias de baixa renda. O projeto foi enviado nesta semana para a Câmara dos Deputados.

Mas o presidente ainda tem um longo caminho para reduzir sua rejeição no Nordeste. Pesquisas apontam Bolsonaro com baixa popularidade, sobretudo nas capitais. Nas análises qualitativas, a gestão da pandemia é apontada como principal problema.

Lula, por sua vez, segue como um dos principais cabos eleitorais nos estados da região e ganhou mais força após voltar a ser elegível. Nas qualitativas, é apontado como um candidato associado à estabilidade, mas enfrenta resistências do eleitor conservador.

Em sua visita a estados do Nordeste, Lula trabalhará para amarrar o apoio de governadores da região e seus respectivos partidos aliados. Para isso, contudo, precisa desatar alguns nós na construção de palanques locais.

O principal deles está no Ceará, onde o governador Camilo Santana (PT) deve concorrer ao Senado e apoiar o PDT para o governo estadual. A manutenção da aliança, contudo, enfrenta resistências diante da estratégia do presidenciável Ciro Gomes (PDT), que aumentou o tom nas críticas a Lula.

"Querem deixar o PT de joelhos, em uma situação subalterna. Isso é inaceitável", critica o deputado federal José Airton Cirilo (PT-CE), que defende que o partido tenha candidatura própria ao governo.

Em Pernambuco, primeiro ponto de parada do ex-presidente no giro pelo Nordeste, a agenda prioritária é com o PSB.

O partido, considerado por Lula como aliado preferencial na esquerda para 2022, foi decisivo no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016 e esteve afastado do PT nas eleições municipais do ano passado.

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), que travou disputa acirrada com a prima Marília Arraes (PT) em 2020 e se elegeu usando o antipetismo como estratégia, vai se encontrar com o ex-presidente.

O convite para um jantar no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, onde Lula será recebido pelo governador Paulo Câmara (PSB), foi feito por interlocutores do ex-presidente.

Até então, Campos e o ex-prefeito do Recife Geraldo Julio (PSB) representam os maiores pontos de resistência no partido à aliança nacional com o PT. Nos bastidores, líderes socialistas avaliam que a relação direta com Lula sempre foi bem mais tranquila do que com o próprio PT.

A ida de Campos ao encontro com o ex-presidente é vista como o primeiro passo para o distensionamento da relação entre os dois partidos, ainda com algumas feridas abertas.

"Essa viagem [de Lula] não vai precipitar uma decisão nossa, mas é um passo importante desta caminhada", avalia o deputado federal Tadeu Alencar (PSB-PE), que estará no encontro.

Existe ainda a possibilidade de o ex-presidente participar, em caráter pessoal, de um jantar com Renata Campos, mãe do prefeito João Campos e viúva do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em acidente aéreo em 2014.

Apesar de ter deixado a Prefeitura do Recife desgastado e com baixa aprovação, Geraldo Julio é o nome mais cotado para a sucessão de Câmara. O ex-prefeito, que defende publicamente candidatura própria ou apoio a Ciro Gomes, não foi convidado para o jantar deste domingo.

No Recife, Lula também vai se encontrar com os deputados federais Dudu da Fonte (PP-PE) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE). Os dois tentam ser "o senador de Lula" na chapa que deve ser encabeçada por Geraldo Julio.

Silvio Costa Filho, que esteve próximo a Bolsonaro no início do mandato por defender a agenda econômica do governo federal, diz não ter constrangimento em se reaproximar de Lula. "O pernambucano só se curva para agradecer. Tenho muita gratidão a Lula por tudo que fez por Pernambuco. Foi o melhor presidente para nosso estado", afirma.

No Maranhão, Lula tem outro nó para desatar. Aliado de primeira hora, o governador Flávio Dino (PSB) trabalha o nome do vice-governador Carlos Brandão (PSDB) para sua sucessão.

A candidatura, contudo, enfrenta resistências dentro do PT, que teria dificuldade em apoiar um tucano para o governo maranhense. Parte da cúpula do partido prefere que o candidato seja o senador Weverton Rocha (PDT-MA).

Na Bahia, está previsto um jantar com o governador Rui Costa (PT), contando com a participação de líderes como o senador Otto Alencar (PSD-BA) e o vice-governador João Leão (PP). A ideia é sacramentar a aliança local com apoio a Lula no momento em que o PP aproxima-se nacionalmente de Bolsonaro.

Lula ainda deve fazer uma segunda viagem a estados do Nordeste para visitar Paraíba, Alagoas e Sergipe. Na Paraíba, vai se reunir com grupos antagônicos que se enfrentarão na disputa pelo governo do estado. É grande a possibilidade de palanque duplo. O governador João Azevêdo (Cidadania) já declarou que tem o aval do presidente do partido, Roberto Freire, para apoiar o petista no estado.

O senador Vital do Rêgo (MDB-PB) também pode disputar o governo com o apoio de Lula e encontrou-se com o ex-presidente na última semana. Nesta eventual chapa, o ex-governador Ricardo Coutinho, que deve migrar do PSB para o PT, tenta emplacar a vaga de candidato ao Senado.

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