Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Brasil
  • Famílias seguem luto sem corpo em Brumadinho um mês após tragédia
Tragédia

Famílias seguem luto sem corpo em Brumadinho um mês após tragédia

O dia 25 de janeiro de 2019 jogou a cidade em um cenário de terror, segundo moradora da região atingida por rejeitos de barragem

Publicado em 24 de Fevereiro de 2019 às 21:58

Publicado em 

24 fev 2019 às 21:58
Com fortes chuvas em Brumadinho, bombeiros concentram buscas no rio Paraopeba Crédito: O Tempo
Às 12h42 do dia 25 de janeiro, Natália de Oliveira, 47, encaminhou uma mensagem que acabara de receber no celular para a irmã Lecilda de Oliveira, 49. "SOS BARRAGEM DA CALE ROMPEU", dizia o texto com erro de digitação no nome da Vale. 
Os risquinhos azuis que indicam recebimento não apareceram na tela. Na terceira mensagem, quando já sabia que o lugar onde havia ocorrido o rompimento era o Córrego do Feijão, em Brumadinho, Natália ficou desesperada. 
No mesmo dia, a família passou a receber telefonemas dizendo que viram Lecilda na UPA da cidade, em um helicóptero, e que ela estaria em um hospital de Belo Horizonte. 
Até domingo, quando circulou a notícia falsa de que haveria sobreviventes em uma região da mata, a família teve esperanças. 
Passados 30 dias, Natália está entre os familiares de 133 pessoas na lista de desaparecidos da Defesa Civil de Minas Gerais. À espera do Instituto Médico Legal, que comunica às famílias quando há identificação de um corpo, ela passou a atender toda ligação que chega ao seu telefone. 
"Todas as famílias merecem fechar esse ciclo. Fico pensando no que uma tragédia dessas faz com a gente. Antes, eu queria ela viva de qualquer jeito. Agora, a gente só quer enterrar o pedaço que for", diz ela. Lecilda trabalhava na Vale havia quase 30 anos. 
O casal Dennis Augusto da Silva e Juliana Creizimar de Resende Silva a convidou duas vezes para madrinha: primeiro do casamento, depois dos gêmeos, agora com 11 meses. Dennis está entre os 177 mortos identificados, e Juliana ainda não foi encontrada. 
O dia 25 de janeiro de 2019 jogou a cidade em um cenário de terror, segundo Natália. Lojas fecharam as portas, pessoas tentaram fugir da cidade, ninguém sabia a proporção real do que havia acontecido.
"Quando começaram os enterros, que começamos a enterrar gente conhecida, aí a gente acreditou que tinha acontecido. A hora que começamos a ter os velórios, as coisas foram ficando reais", lembra. 
O tempo à espera da confirmação da morte também é uma forma de luto, segundo a psicóloga e coordenadora do Laboratório do Luto da PUC-SP, Maria Helena Pereira Franco. Nele, as pessoas oscilam entre dor e expectativa, enfrentar a realidade ou seguir em frente. 
"Os rituais são importantes porque eles marcam a realidade. Eles organizam a pessoa e dão concretude. Não havendo um corpo, o ritual conhecido, habitual, fica tudo em suspenso. Isso pode criar uma condição que preocupa, que chamamos de luto ambíguo. Na ambiguidade, fica difícil a pessoa retomar a vida", explica. 
Não encontrar o corpo era o medo da família do auxiliar de serviços gerais Martinho Ribas, 60, até a última quinta-feira (21). 
Depois de um ano desempregado, Martinho começou a trabalhar na Vale em setembro do ano passado. Quatro meses depois, a avalanche de lama interrompeu tudo.
Seu velório em Brumadinho foi como tem sido quase todos: uma cerimônia de até 20 minutos, com familiares e amigos, seguida do enterro no local que a família indicar. 
"Mesmo tendo enterrado, a gente fica com dúvida. Porque a gente não viu, né? Não deixaram abrir o caixão. A neta queria ver de qualquer jeito. Ainda ficou meio pesaroso, porque a vontade da gente era ver o corpo", afirma Laudi Maria Soares, viúva aos 54. 
Especialista em tragédias como acidentes aéreos, o advogado Josmeyr Oliveira explica que, em casos onde corpos das vítimas não são encontrados, é importante que a família tenha algum simbolismo da morte. 
O Chapecoense, por exemplo, contratou uma empresa especializada em "resgate de salvados" após a queda do avião com o time de futebol na Colômbia, em 2016. "Salvados" são objetos tirados do local da tragédia que tenham valor --financeiro, no caso de seguradoras, ou, neste caso, afetivo.
"O universo de Minas Gerais é muito maior pelas implicações, não só das vidas perdidas, mas pelas que foram impactadas. Muita gente vai ter que enterrar os [objetos] salvados", afirma. 
As famílias relatam que a Vale ofereceu a ajuda de psicólogos para acompanhá-los. A mineradora, porém, não contratou a busca de salvados. 
Para os bombeiros, o resgate de pertences não é prioridade no momento. Porém, objetos encontrados estão sendo guardados para ajudar nas identificações e poderão ser disponibilizados no futuro.
Shirley Aparecida Côrrea dos Santos, 39, enviou várias mensagens ao marido Josué Oliveira da Silva, 27, na manhã em que a barragem rompeu.
Trabalhando em uma empresa terceirizada pela Vale, ele estava temporariamente em Brumadinho e esqueceu o celular no dormitório. Os dois fariam um ano de casados no dia 2 de fevereiro. 
Depois de passar semanas à espera de notícias, na segunda (18) Shirley voltou a trabalhar.
"É uma forma de retomar, para não ficar só em casa, só no quarto. Seria bom que tudo parasse, mas não para", diz ela.
As buscas não têm prazo para terminar e podem seguir por meses. Elas só devem parar quando não houver mais possibilidade de distinguir lama e corpos, de acordo com o tenente Pedro Aihara, porta-voz dos Bombeiros. 
O dia 25 de janeiro foi o primeiro de trabalho de Daiana Caroline Silva Santos, 33, após cinco meses em licença-maternidade. Às 12h15, ela enviou ao grupo de mensagens da família uma foto do seu almoço, dentro do refeitório da Vale: salada e um pouco de feijoada. 
Caçula de nove irmãos, Daiana listava dois sonhos: trabalhar na empresa e ser mãe. 
O primeiro veio em 2013; Heitor nasceu em 2018. Sobrevivente de três acidentes de carro, ela tinha uma vontade imensa de viver, diz o irmão Antônio Rosário da Silva, 47. 
"Não ter achado [o corpo] deixa aquela angústia. A gente tem um ciclo, que é fazer velório, enterro digno. Saber que ela ainda está na lama mexe muito com a família."

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Perspectiva do Porto Central, em Presidente Kennedy
O potencial do parque logístico do Sul do ES em um número
GWM SOUO S2000-
Motocicleta Souo 2000 da GWM é cruiser de luxo equipada com motor de oito cilindros
Imagem de destaque
Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 06/05/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados