Eu gostaria muito de virar a página com relação às críticas feitas ao governo federal, mas parece que essa tarefa será impossível enquanto ele durar. A polêmica mais recente foi um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias, em que afirmou que as pessoas portadoras de HIV são custosas para o Brasil, no mesmo cenário em que defendeu a fatídica campanha de abstinência sexual da ministra Damares.
E não foi só isso. Bolsonaro conseguiu unir em várias frases um misto enorme de preconceito, retrocesso, desconhecimento e descaso com as políticas públicas já estabelecidas após décadas de muita pesquisa.
E, para piorar a situação, após receber muitas críticas sobre a fala de considerar um fardo a existência de pessoas com HIV, Bolsonaro demonstrou o seu completo despreparo para gerir um país. Criticou a imprensa – como sempre faz -, afirmando que sua fala foi desvirtuada. Assim, o presidente afirmou: “o que eu falei é que faltou uma mãe, uma avó, para ensinar essa menina de 16 anos com HIV e três filhos que ela não deveria ter começado a fazer sexo”.
Então, para além de todo o preconceito exarado, ao considerar um custo o tratamento da aids no Brasil, o país com o sistema público de saúde mais completo que existe, Bolsonaro atestou, como sempre faz, suas práticas machistas e o entendimento que tem com relação às mulheres e aos cuidados.
Ao dizer que “faltou uma mãe e uma avó” para ensinar, Bolsonaro confirma o que todas as pastas de seu governo estão produzindo enquanto política pública: a culpa é sempre da mulher. Não há, para ele e seus seguidores, nenhuma obrigação do homem, do pai, em educar, em ensinar aos filhos. Assim, se alguma coisa “der errado”, será a mulher a culpada pela falha e o Estado terá esse “prejuízo” em dar a atenção devida àqueles que precisam.
Por fim, na mesma oportunidade em que deu essa declaração destoada de toda a realidade, Bolsonaro se queixou do fato de a imprensa ter noticiado sua fala sobre o HIV – o que é uma destruição de reputação, para ele – e, como uma criança pirracenta, terminou sua fala dizendo que queria ser amigo dos jornalistas, mas não era possível. Logo após, “deu uma banana” para os jornalistas que estavam presentes no Palácio da Alvorada.
O que se vê nas atitudes do presidente nada mais é que uma série de repetições de erros, falhas que Bolsonaro não parece querer corrigir; do contrário, aprofunda ainda mais o doloroso discurso machista que nos atinge todos os dias. Talvez, de fato tenha lhe faltado mais a presença de pessoas plurais em sua vida para que tenha podido aprender a respeitar e admirar as diferenças, que são fundamentais para o crescimento do nosso país, que é por natureza, muito diferente do Brasil de Bolsonaro.