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Vitor Vogas

Bolsolula: opostos, mas nem tanto

Quanto ao desapego de Lula pelo trabalho da imprensa e ao "germe autoritário" incubado em seu discurso político, serão pontos mais bem abordados na sequência das colunas

Publicado em 04 de Fevereiro de 2018 às 22:27

Públicado em 

04 fev 2018 às 22:27
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Em uma primeira mirada, a olho nu, Lula e Jair Bolsonaro parecem perfeitos opostos. Surgem, um para o outro, como o avesso da moeda. Essa visão é superficial. É só botar o óculos de grau para constatar que esses “contrários”, na verdade, são perfeitos, isso sim, um para o outro. Possuem muito mais em comum do que eles próprios e seus seguidores gostariam de admitir. E o ponto principal de intersecção, onde os dois se encontram e se dão as mãos, é o repúdio que ambos manifestam pelo trabalho da imprensa – um dos mais importantes pilares de qualquer nação que se pretenda democrática.
Jair Bolsonaro Crédito: Ilustração AG
Em Bolsonaro, essa repulsa é explícita, intrínseca ao pensamento autoritário e ultrapassado que ele representa. Seu pouco apreço pela liberdade de imprensa e de expressão sempre se fez evidente na defesa saudosista e deslocada no tempo que o deputado faz da ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985, um regime que tinha precisamente na censura uma das suas pedras fundamentais. No Estado de exceção, vale a lei da mordaça. É desse regime que Bolsonaro tem saudades. Precisa dizer mais o quê? Bolsonaro defende a ditadura; ditadura é igual a censura. Logo...
Mas, nos últimos tempos, conforme se aproxima a eleição presidencial e Bolsonaro procura consolidar sua candidatura, essa incapacidade do deputado em lidar com a imprensa e entender o seu papel se tornou ainda mais evidente, a partir de alguns episódios que dizem respeito diretamente a ele. Procurem na internet a entrevista que ele deu para a “Folha” no dia 11 de janeiro. É uma prova rara não só de despreparo técnico, mas também de despreparo emocional.
Entre outros despautérios, ele admite, após forte insistência dos dois repórteres, que usava “para comer gente” a verba de auxílio-moradia que recebe desde 1995, mesmo tendo imóvel próprio em Brasília. Na mesma entrevista, Bolsonaro deixa bem claro: se chegar ao Planalto, vai selecionar a dedo os veículos que vão poder cobrir o seu governo, vetando, à la Donald Trump, aqueles que, como a “Folha”, estiverem em sua lista negra.
O que mais se destaca, porém, na postura do deputado, é o desconforto que ele não disfarça com algo que na verdade não passa de dever da imprensa e que deveria ser tratado como rotina na vida de qualquer governante ou aspirante a tal: respectivamente, cobrar explicações e dar as explicações devidas. Ao longo da entrevista, transcrita e publicada na íntegra pelo jornal, Bolsonaro contesta o trabalho da reportagem, mostrando-se indignado com o fato de jornalistas estarem revirando seu passado e esmiuçando suas práticas como deputado desde que chegou à Câmara há quase 30 anos – como se aquilo fosse exceção e não a regra no trabalho jornalístico.
Não há nada que justifique tamanha revolta com algo que é normal e necessário. Ora, as pessoas têm o direito de saber. Bolsonaro não é pré-candidato a síndico do condomínio onde possui duas casas. É “só” candidato ao cargo mais importante da República. Sendo assim, será que precisa prestar contas de seus atos pregressos e ter a vida esquadrinhada pela imprensa? Em qualquer democracia que se preze, a resposta é: sem dúvida alguma. Mais ainda quando o presidenciável em questão, após 28 anos de mandatos, apresenta a “honestidade” como marca maior de distinção em relação a todos os demais.
Na verdade, com relação a Bolsonaro, o que a imprensa pesquisou até agora ainda é pouco. E já causou tal reação! Bastou os jornais dedicarem um pouco mais de tempo de apuração que já surgiram casos de nomeação de ex-esposa no gabinete; o já citado auxílio-moradia; evolução patrimonial, dele e dos filhos, em ritmo atípico a cada eleição; assessora lotada em seu gabinete, mas que trabalha vendendo açaí em Angra dos Reis... Talvez esse, na verdade, seja o motivo de tanta indignação. E de todo aquele saudosismo. Na ditadura, bastava censurar e amordaçar que nenhuma dessas “verdades inconvenientes” teria jamais vindo à tona. Mas a quem interessaria isso?
Colnago: arestas a aparar
A intensa movimentação do vice-governador César Colnago (PSDB) pelo Estado, em ritmo de pré-campanha, e declarações dadas por ele à imprensa em janeiro não repercutiram muito bem entre sócios do governo Paulo Hartung que representam outras forças políticas. Alguns avaliam que, durante sua interinidade (de 11 a 26 de janeiro), o vice foi explícito demais, incomodando aliados.
Não tão rápido
Para o mercado político, o recado que Colnago quis passar foi: “Se Paulo Hartung não for candidato à reeleição, o candidato do grupo ao governo serei eu, e está acabado.” Mas, para outras forças representadas no governo, não é bem assim. Botando o pé na porta, alguns dizem que, se PH não vier à reeleição, ninguém tem “preferência natural” e todas as posições de candidaturas majoritárias (governador, vice-governador, dois senadores e respectivos suplentes) terão que ser rediscutidas entre todos os partidos hoje instalados no governo.
Reposicionando as peças
Um dos que defende isso é Rodney Miranda (DEM). “Em princípio serei candidato a deputado federal ou, dependendo do movimento do governador, podemos estudar outra candidatura. Temos um líder, e ele está tentando algo a nível nacional, então há uma possibilidade de ele não ser candidato à reeleição. Nesse caso, vamos ter que nos sentar no nosso grupo, com nossos aliados, para definir quem vai ser candidato a quê dentro dessa nova configuração. Defendo reposicionamento das pedras no tabuleiro. E posso até ser pré-candidato a outra coisa.”
Atirando em vários alvos
Atual ouvidor-geral do Ministério Público Estadual, o procurador de Justiça Alexandre Guimarães está mirando em vários alvos para ver se consegue acertar um. No processo eleitoral do MPES, registrou candidatura, simultaneamente, para os cargos de procurador-geral de Justiça, ouvidor-geral e corregedor-geral.
Cena Política
Explicando o programa “Internet para Todos” no Palácio Anchieta, na última quinta, o ministro das Comunicações, Gilberto Kassab, falou do 1º satélite lançado pelo governo, em 2017, e anunciou o lançamento de mais um em breve. Arrematou com uma “zoeira”: “O próximo vai ter um compartimento onde cabem 200 pessoas. Aí o senhor governador vai poder escolher quem mandar para o espaço”, disse ele a Paulo Hartung, sentado na primeira fila. Logo em seguida, o chefe da Casa Civil, Zé Carlinhos, assumiu a fala e entrou na brincadeira: “Fiquei com medo de ter sido designado já”.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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