É de fazer chorar de emoção a volta dos que não foram, neste caso, o “Jornal do Brasil”, que volta a ser impresso e circular nacionalmente. É bom ter os impressos, ao lê-los nos permitem fazê-los. Fundado em 1891, influenciou a imprensa nacional. Impôs uma modalidade de diagramação, sem joelhos (“dobras” no texto impresso), e era fácil de ler.
Me desculpem os soldadinhos de chumbo da ditadura militar, mas o que me lembro agora era a forma possível de resistência que imprimia. Quando a censura atropelava a imprensa, arriscavam-se os editores a arranjar um jeitinho de denunciar. No lugar da notícia proibida, especialmente na primeira página, o JB denunciava a proibição editando receitas de doce, por exemplo. Era um recado em código, que não podia ser censurado. Afinal, o que são inocentes tortas de nozes? Não publicavam nada ou quase nada que acariciasse o governo, fiéis que eram à ideia segundo a qual notícia é algo que alguém quer esconder por algum motivo, o resto é propaganda. Pois é.
No dia 25 de fevereiro, 40 mil exemplares povoaram as bancas do Rio. Saravá! Praticamente todas as expressões da literatura e jornalismo passaram pelo matutino da Avenida Rio Branco (muito depois, perto do fim, ocuparia ocuparia um prédio na entrada da Avenida Brasil).
A condessa Pereira Carneiro, também jornalista, ocupou as funções de diretora presidente de 1953 até sua morte, em 1983. O “Jornal do Brasil”, JB para os íntimos, era distribuído por todo o país.
Em julho de 2010, as linotipos rodaram os derradeiros exemplares. Pararam as rotativas, literalmente. O jornal já não conseguia se sustentar, por erros sucessivos de gestão, dizem os espíritos estreitamente positivos. A edição on-line não conseguiu reproduzir nem a sombra do impresso. Este exalava um charme que alcançava citações em sambas de sucesso, como um clássico de João Nogueira, o “Malandro JB”, onde canta uma reportagem do jornal com humor e crítica à influência deste no resultado do desfile das escolas de samba.
Agora, a redação do JB voltou a funcionar no antigo prédio da Avenida Rio Branco, no Rio, no 21º andar, edifício RB 53, contando apenas com 30 profissionais e 20 colunistas, além dos colaboradores. A impressão passou a ser feita no parque gráfico, no subúrbio de Duque de Caxias, no tradicional formato standard que o jornal teve até 2006.
Três aviões sobrevoaram a orla do Rio de Janeiro e Niterói para anunciar a reestreia. Os exemplares esgotaram nas bancas após cinco horas de venda. Em Brasília, circularam 2 mil exemplares e, em São Paulo, nos aeroportos da cidade.
Bem-vindo.
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista