
Francisco Aurelio Ribeiro*
O Brasil e os brasileiros têm muitas faces. Quem só se aventura pelas margens conhece o Brasil e os brasileiros das belas praias, da água de coco, dos caranguejos e das moquecas. Mas, no interior do Brasil, existe um mundo diferente desse a que estamos acostumados e que nos surpreende por sua beleza e por sua diversidade.
Foi o que aconteceu comigo, recentemente, com a descoberta de um paraíso de ecoturismo chamado Jalapão. Não é fácil chegar lá. E nem barato. Tem-se de ir a Palmas, capital do Estado de Tocantins, e lá contratar os serviços de uma operadora especializada nesse tipo de serviço, que oferece pacotes de três, quatro ou seis dias.
Não se recomenda adentrar o Jalapão, se não for em veículo quatro por quatro. Escolhi o programa de quatro dias e é suficiente para conhecer as principais belezas do Jalapão, uma área quase do tamanho do Estado do Sergipe. As saídas são semanais nesse período de estiagem e o mês mais bonito para visitar essa região é setembro, pois coincide com a primavera, quando os ipês florescem no cerrado, colorindo de vida a paisagem e tornando-a mais bela.
Não sei como se pode viajar por ceca e Meca, para se postar, nas redes sociais, fotos em que as únicas pessoas que aparecem são elas mesmas, muitas vezes, impedindo até a visão dos lugares ou dos monumentos focalizados
Há gente que viaja para admirar a beleza artificial feita pelo homem: pontes e prédios, igrejas e monumentos. Ao contrário desses, penso que nada substitui a beleza natural de rios e de cascatas, da fauna e da flora, e acredito que nada seja mais grandioso do que um pôr de sol visto no cerrado ou o nascer do sol vivido no Pico da Bandeira, imagem que nunca esqueci.
Também nunca vou esquecer o céu estrelado do Atacama ou a lua cheia em Kathmandu. Nada do que já tenha visto no mundo - e já vi quase tudo de grandioso feito pelo homem, das muralhas da China às pirâmides do Egito, da torre Al Khalifa de Dubai às torres gêmeas Petronas de Kuala Lumpur, na Malásia -, me impressionou mais do que a diversidade das flores do cerrado, a coloração e a textura das areias dos diferentes desertos que já percorri, o cheiro ou a coloração das especiarias dos mercados orientais. E as pessoas, claro!
Não sei como se pode viajar por ceca e Meca, para se postar, nas redes sociais, fotos em que as únicas pessoas que aparecem são elas mesmas, muitas vezes, impedindo até a visão dos lugares ou dos monumentos focalizados.
Recomendo a visita ao Jalapão pelo que tem de especial: a beleza do cerrado, as dunas, os fervedouros, locais onde a água brota do solo, o capim dourado, nativo da região, que permite a confecção de belo e sofisticado artesanato. A exploração turística dos fervedouros e a extração do capim dourado, sua confecção e comercialização estão nas mãos dos quilombolas. Triste é que os descendentes dessa elite são os atuais megafazendeiros do agronegócio, que queimam as matas nativas para plantar capim e formar pastos para os bois, ou para semear eucalipto. Aos poucos, o que era um paraíso pode virar deserto.
*O autor é professor e escritor