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Vitor Vogas

BBB Serra: Big Brother Barraco

Confira a coluna do Vitor Vogas neste domingo (25)

Publicado em 24 de Março de 2018 às 21:58

Públicado em 

24 mar 2018 às 21:58
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Câmara da Serra Crédito: Arte
Quosque tandem, vereadores da Serra? Até quando vão abusar da nossa paciência?
Ao longo das últimas duas semanas, os vereadores da Serra, eleitos pelo povo para representar o povo (mas será que se lembram disso?), conseguiram alcançar o que parecia impossível em uma Câmara com histórico de casos de corrupção e mau uso do dinheiro público: bateram todos os recordes de falta de noção e, acima de tudo, de falta de respeito com a população que os colocou ali. Ali onde, no momento, se recusam a ficar e a trabalhar.
Na prática, contrariados com a decisão judicial que afastou da presidência a vereadora Neidia Pimentel (PSD) e com a consequente ascensão de uma nova Mesa Diretora, a maioria dos 23 edis tem realizado uma greve não declarada. Repita-se: são agentes do Estado, com mandato outorgado pelo povo e cujo cumprimento deveria ser sagrado. Nada que pareça preocupá-los. Se paralisação de juízes já soa como algo sem nexo, ainda mais absurdo é ver parlamentares cruzando os braços. Pior ainda: sem deixar de receber um centavo. E a história fica ainda mais patética quando se entende o contexto.
O novelão político (mistura de folhetim B mexicano com “House of Cards” serrano) tem como protagonista Neidia, a drama queen do município. No mandato passado (2013/2016), ela já era presidente da Câmara. Fazia oposição ao governo de Audifax Barcelos (Rede) e deu muita dor de cabeça ao prefeito. Aí veio a eleição de 2016. Audifax se reelegeu prefeito. Neidia, vereadora. No fim daquele ano, começaram as articulações para a eleição da Mesa que comandaria a Câmara no biênio seguinte (2017/2018). Apegada ao poder, Neidia não quis deixar por nada a presidência.
No Legislativo da Serra, a chapa que conta com apoio de 12 vereadores garante a maioria dos votos e está virtualmente eleita. Inicialmente, Neidia compôs com um grupo de vereadores não perfilados com Audifax. E lá foram todos, Neidia entre eles, enclausurar-se no sítio da família de um deles, Nacib (PDT), em Paraju, distrito de Domingos Martins, onde ficaram confabulando até o momento da eleição. No arranjo feito por esse grupo, Neidia não tinha garantia alguma de manter a presidência. Na verdade, sobrou-lhe o posto de 1ª secretária.
No dia da votação, porém, a vereadora protagonizou uma manobra surpresa: traindo os outros 11 com quem se enfurnara em Paraju, passou para o lado dos aliados de Audifax, que lhe asseguraram a manutenção da presidência. Neidia, então, sem mais nem menos, foi tomar seu lugar na cabeça da outra chapa, deixando ao relento os antigos companheiros. Isso aos 48 do 2º tempo do processo. Com o deslocamento de Neidia, o número mágico (12 membros) passou a ser da chapa apoiada por Audifax, a qual, formando a maioria, conseguiu se eleger. E assim, de uma hora para outra, a adversária do prefeito se fez sua aliada na Casa e obteve o que almejava desde o início: manter-se no centro da Mesa.
A sessão foi um barraco só, com direito a xingamentos, agressões entre vereadores e entre pessoas na plateia, a tal ponto que a Polícia Militar precisou intervir.
REVIRAVOLTAS
 
No entanto, em 27 de julho de 2017, a Justiça anulou a eleição de 1º de janeiro daquele ano, por meio de decisão liminar (provisória). Por força da mesma decisão, os vereadores então escolheram uma nova Mesa Diretora, a qual passou a ser presidida por Rodrigo Caldeira (Rede). Cinco dias depois, Neidia conseguiu reverter a decisão na Justiça e retomou seu assento na presidência, onde ficou até o dia 14 deste mês. Nessa data, Neidia foi afastada provisoriamente de suas funções por responder a um processo nas esferas criminal e cível.
Ela e o ex-controlador da Câmara Flávio Serri (também do PSD) são acusados pelo Ministério Público Eleitoral de chefiarem um esquema de apropriação de salários (rachid) envolvendo servidores fantasmas. Dois dias depois, o TJES considerou ilegal a eleição da Mesa em janeiro de 2017 (aquela do barraco geral). Determinou, ainda, o retorno dos membros daquela Mesa eleita em julho de 2017, tendo à frente Rodrigo Caldeira.
Cansado(a)? Tome fôlego que a história só piora. E revela o cúmulo do escárnio a que Neidia e companhia conseguiram chegar desta vez.
VEREADORES NÃO QUEREM TRABALHAR
Não satisfeitos com toda a instabilidade política já causada ao município da Serra, o que decide então fazer um grupo de 14 vereadores liderados por Neidia, a partir do afastamento desta e da ascensão da nova Mesa Diretora?
Em vez de acatarem a determinação judicial e refletirem sobre seus atos, resolvem boicotar a nova Mesa, a qual dizem “não reconhecer”, iniciando um “movimento paredista” e adivinhem: indo se confinar em outro sítio, desta vez localizado em Santa Teresa, onde, garantem os próprios sem o menor pudor, rolam soltas as articulações para que eles encontrem um modo de voltar ao poder na Casa e mantê-lo. Aqui cabem as primeiras perguntas: Quem disse que compete aos vereadores da Serra “reconhecer” ou não alguma decisão judicial? Será que reconhecem qual é o seu lugar e o seu papel? Perderam de vez o respeito pela Justiça e sobretudo pelo povo! Só não perderam os privilégios do cargo. Não querem mais saber de trabalhar, mas do soldo fazem absoluta questão.
Como se o absurdo já não fosse pouco, os 14 têm seguido em comboio para a Câmara todas as tardes em que há sessão plenária, com um exclusivo objetivo: registrar presença em plenário, para não terem o ponto cortado. Depois disso dão meia volta e retornam ao sítio, em caravana. Segundo eles, em “protesto”. O “protesto”, claro, quem banca sou eu e você. Enquanto isso, a Câmara está parada. Sem quórum, nada se vota, nada se cria, tudo se transforma em baixaria. E ninguém legisla sobre nada. Uma excrecência, enfim, uma aberração...
Pobre Serra! Tão grande no tamanho, tão grande na economia, mas com uma Câmara tão pequena e baixa, composta por vereadores cuja postura envergonharia os de qualquer cidadela do interior do Estado. Nobres edis, me desculpem a expressão, mas até quando Vossas Excelências levarão adiante essa piada?
Por que confinar?
Além do escárnio com o povo, o comportamento abjeto dos nobilíssimos edis da Serra revela uma mistura de excesso de esperteza com inacreditável infantilidade. Querem ser tão malandros que chegam a ser pueris. Por exemplo, por que raios os 14 vereadores veem necessidade de se confinarem em um sítio por tantos dias enquanto articulam seu retorno triunfal ao poder? A resposta de alguns deles para A GAZETA: porque não confiam uns nos outros. Um deles confidenciou que Neidia chega ao cúmulo de recolher e desligar celulares.
Por que confiar?
Aí fica mais uma pergunta no ar: se nem eles mesmos confiam uns nos outros, que motivos tem o cidadão da Serra para confiar em seus parlamentares?
Ninguém sai, ninguém trai... Será?
A novela vira então reality show, o “Big Brother Barraco”, versão Serra, pois, além do confinamento voluntário, no sítio todos eles se vigiam mutuamente, o tempo todo e ao mesmo tempo, a fim de evitar traições, partindo da máxima de que “se ninguém sai, ninguém trai”. A tática, evidentemente, não tem nenhuma garantia de sucesso, haja vista o exemplo da própria Neidia na virada de 2016 para 2017.
Carneiro, o artilheiro
Bem-humorado, o governador Paulo Hartung (PMDB) contou, em evento na Secretaria de Esportes, uma anedota sobre a pelada dos deputados da base contra os membros do governo, realizada no campo da Residência Oficial há poucas semanas. “Eu nomeei o Roberto (Cerneiro) para a pasta de Esportes achando que ele não sabia jogar nem peteca. Mas achei que ele ia dar certo. Recentemente, descobri que ele joga futebol. O time do governo tomou de 7 a 2. Mas os dois gols do governo foi ele quem fez. No 1º tempo, o jogo terminou 2 a 1 pro time do governo. Como o time do governo tem um técnico, o técnico imediatamente ordenou uma reversão nesse placar, para que o governo possa ter todos os projetos aprovados na Casa”, riu-se Hartung. A arquibancada veio abaixo com o chiste do treinador.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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