Andar até o ponto de ônibus, caminhar pelo bairro à noite, entrar com o carro na garagem do prédio, falar ao celular na rua. Essas atividades banais estão hoje impregnadas pelo medo da violência. Não sem razão. Nem mesmo dentro de casa encontra-se proteção. Grávida de sete meses, Pâmela Soares é um triste exemplo da insegurança. A jovem de apenas 23 anos morreu na terça-feira (14), ao ser atingida na cabeça por uma bala perdida, num cômodo de sua residência, em Gurigica, Vitória.
A tragédia é ainda maior, uma vez que a bebê que Pâmela esperava também morreu, nesta quarta-feira (15), um dia após ter sobrevivido ao parto de emergência. Enfrentou também duas paradas cardíacas em uma história que chocou e emocionou até mesmo os agentes de segurança e de saúde que atenderam a ocorrência. A imagem de Laura, logo após o parto de emergência, estampada na capa de A GAZETA desta quarta (15), tornou-se imediatamente emblemática das agruras que a população enfrenta diante da criminalidade, que estica seus tentáculos para dentro das casas.
Esse caso é mais um em uma triste lista de pessoas assassinadas em seus lares, onde elas se recolhem em busca de paz e segurança, depois de enfrentar os perigos das ruas. No dia 28 de maio, outro jovem, Lucas Teixeira Verli, foi atingido por mais de 15 disparos enquanto jantava na varanda de sua casa, no Morro da Piedade, também na Capital. Um mês depois, em 28 de junho, Nelson Antonio Ghistolfi, de 66 anos, morreu com tiro no peito no momento em que participava de um culto com amigos na sua casa, no bairro Morro Novo, em Cariacica.
Pâmela, Laura, Lucas e Nelson são símbolos extremos da violência urbana, que faz milhares de reféns todos os dias, especialmente nas regiões carentes. Já passou da hora de os governos, nas esferas federal, estadual e municipal, se unirem em um pacto nacional de enfrentamento, que contemple políticas de segurança e programas sociais. Enquanto medidas eficazes não forem tomadas, nem mesmo dentro de casa encontraremos proteção.