Com a proximidade do julgamento do Supremo que pode sepultar o auxílio-moradia, a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) anunciou que a categoria vai paralisar as atividades no próximo dia 15, em protesto. Justificou-se afirmando haver uma perseguição exclusiva à magistratura e comparou a situação às retaliações sofridas pelos juízes da Operação Mãos Limpas, na Itália. Fecha, assim, os olhos para uma insatisfação popular que nada tem a ver com o êxito inegável da Lava Jato, da qual faz parte, com louvor. A sociedade é a primeira a aplaudir os avanços promovidos pela força-tarefa.
Mas é preciso entender que questionar privilégios não é uma perseguição deliberada e está longe de ser uma revanche. É simplesmente uma cobrança saudável para o país em seu atual estágio, bem mais consciente de que sem uma redução drástica dos gastos públicos não há saída. Não se pode distorcer as verdadeiras intenções de se colocar vantagens históricas em xeque.
É por isso que a reforma da Previdência, lamentavelmente abandonada, não pode ser capenga, como parecia ser o seu destino. Tem que endurecer as regras para uma casta de privilegiados que desmedidamente amplia o rombo com suas aposentadorias especiais. E não é só isso: há a necessidade de mais controle sobre determinadas despesas supérfluas, que fogem completamente ao que deveria ser o papel do Estado. O auxílio-moradia irrestrito, da forma como é concedido hoje, está nessa categoria e precisa de fato ser questionado.
O benefício tornou-se subterfúgio para se ultrapassar o teto de vencimentos do funcionalismo, atualmente em R$ 33.763. A questão é que há, hoje, uma compreensão de que os privilégios podem ser tão ou mais danosos que a corrupção para a saúde financeira do país. A diferença é que têm a lei do seu lado.