Vinícius Valfré (Interino)
Líder da maioria governista na Câmara dos Deputados, o deputado federal Lelo Coimbra (MDB) afirmou que o governo deveria levar em conta "a boa governança, a localização estratégica e o valor agregado" do Espírito Santo para decidir o endereço do ramal ferroviário a ser construído como contrapartida da renovação da concessão da ferrovia Vitória – Minas Gerais, da Vale.
Pela função que exerce em plenário, Lelo é um temerista. Funciona como aliado e apoiador do governo que é de seu partido. Curiosamente, porém, diz que também foi pego de surpresa pelo anúncio de que o ramal será construído entre Mato Grosso e Goiás.
O que aconteceu para que a mudança do endereço da ferrovia?
Estamos acompanhando isso enquanto bancada e governo do Estado desde o ano passado. Estivemos com Moreira Franco, na época na secretaria da PPI (Programa de Parcerias e Investimentos), e conversamos com o Michel Temer. As concessões da Vitória a Minas, da Vale, e a da MRF, do Rio a Minas, estão vencendo. O governo aprovou lei no Congresso para que a concessão possa ser antecipada. Nós havíamos formulado, no Estado, com a Vale, com o empreendimento do Porto Central, que a estrada de ferro 118 pudesse ser desenvolvida, de Cariacica a Presidente Kennedy, ajudando o Porto do Açu (no Estado do Rio). E nesse processo de concessão da Vale esse investimento seria colocado como prioritário pelo governo central.
E seria prioritário?
Isso foi incorporado. Foram feitas conversas pela bancada de deputados, de senadores e pelo governo com Temer e com Moreira Franco. Foi entregue um documento da bancada federal ao presidente Temer. As conversas nossas assentiram de que esse investimento deveria ser considerado prioritário.
E o presidente concordava?
Da mesma forma. Inclusive, uma das disputas que estavam colocadas era de que fosse do Rio a Campos. E não de Vitória a Campos. Quando foi feito um evento no Porto Açu, no discurso do Moreira Franco veio essa conversa. Mas deve haver investimento onde elas estão. A renovação é da concessão da ferrovia que passa no Estado. Há o componente ambiental como ônus, deveria haver o componente investimento como bônus.
A bancada cochilou em algum momento, uma vez que era rascunhada a contrapartida no Espírito Santo?
Em todos os momentos em que esse risco esteve presente, nós nos movimentamos. Seja pela bancada, seja pela conversa do governador com o presidente, seja pela nossa conversa com Moreira Franco. Mesmo tendo a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), no Centro-Oeste, e o Ferroanel, em São Paulo, sendo vistos como necessários, o canal do Espírito Santo era importante para Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em todos os momentos estamos acompanhando. Não houve nenhum arrefecimento por parte da bancada ou do governo estadual. Fomos surpreendidos com esse anúncio na noite de anteontem para ontem (domingo para segunda). É direito nosso receber o benefício da concessão renovada.
O que pode ter acontecido para a mudança? O Espírito Santo perdeu a queda de braço para Estado com mais força política?
O Espírito Santo é conhecido pela boa governança. Há as disputas nacionais. Não sei qual foi a motivação desse anúncio, dessa decisão neste momento. Mas não podemos abrir mão daquilo que é de direito nosso. O Porto Central, os mineiros dizem, é um porto mineiro em terras capixabas. Não consideramos a queda de braço resolvida.
A ausência do governador no evento da inauguração do Aeroporto de Vitória influenciou de alguma forma essa decisão?
Não acho. Já vi isso nas redes sociais. É a luta política que está falando isso. Não é a realidade dos fatos. O governador tem história de governança e de responsabilidade com o Estado muito grande. Vamos continuar a negociação. Embora manifestado pela área técnica, não está batido o martelo pelo governo.
O episódio é mais um exemplo de que o Estado carece de força política, até em função do tamanho da bancada?
Nosso Estado é menor do que os outros. Estamos entre os "países" de Minas, Rio e Bahia. As bancadas menores, de Nordeste e Centro-Oeste, são contíguas, formam bancadas regionais. Temos a localização estratégica e a governança. Atingimos um nível de governança para sermos respeitados. Esse conjunto de coisas merece fazer parte da mesa de negociação. Se formos trabalhar em termos de número de bancada, perderíamos todas. Mas temos valor agregado importante.