Quando conversou com a coluna há poucos dias, o jovem Felipe Rigoni (PSB) estava feliz da vida. Um dia antes, ele chegara de volta ao Estado vindo da Inglaterra, onde fora passar alguns dias por um motivo especial: a formatura da sua turma do mestrado em Políticas Públicas que fez em Oxford, uma das universidades mais prestigiadas do planeta. Aos 27 anos, Rigoni foi a grande surpresa da última eleição no Espírito Santo, como o segundo candidato a deputado federal mais votado.
Uma surpresa, sim. Um acaso, não. Diferentemente de muitos, Rigoni se preparou a fundo para entrar na política e exercer o mandato parlamentar – como prova, por exemplo, o mestrado. Além disso, ele foi um dos 133 participantes do primeiro curso de “formação de novos líderes” promovido pelo RenovaBR e um dos 17 da turma que conseguiram se eleger (o único capixaba). Na última sexta-feira, em palestra durante o 13º Encontro de Lideranças, o empresário Eduardo Mufarej, coordenador do RenovaBR, citou Rigoni em tom lisonjeiro, como exemplo dessa “renovação”.
Defendendo a discussão de projetos no Congresso e a definição de políticas públicas com base em evidências científicas (estudos, estatísticas, indicadores e dados confiáveis etc.), Rigoni chega à Câmara com ideias claras e objetivas sobre a reforma previdenciária e, principalmente, a tributária, área em que se especializou e na qual se sente mais à vontade e entusiasmado para debater.
“O Congresso está muito polarizado. Cada vez mais vamos precisar de pessoas que defendam as decisões baseadas em evidências. Me parece – e eu posso estar enganado, e espero estar – que estamos em um Congresso que se elegeu não porque é a favor de algo, mas porque é contra. E é contra no abstrato, não no específico. E isso nos dá uma oportunidade, mas um desafio. As pessoas, me parece, estão despreparadas na sua grande maioria, até para a pauta que defendem. E estão defendendo um pouco com discursos inflamados etc. Então cada vez mais as candidaturas como a minha, que defendem muito as evidências científicas, vão precisar sentar à mesa com as melhores evidências possíveis e com uma comunicação muito clara, para não virar um caos. Eu acho que [o Congresso] pode virar um caos [risos].”
Sobre mudanças no sistema de tributação, Rigoni defende que a melhor proposta de reforma é a que foi apresentada pelo economista Bernard Appy, a qual chegou a inspirar alguns presidenciáveis na última campanha, como Marina Silva (Rede) e principalmente Alckmin (PSDB).
“É a mais politicamente factível. A gente precisa transitar para um imposto único sobre consumo, o IVA, com uma alíquota não tão grande como temos hoje. Hoje mais de 60% dos impostos brasileiros vêm de consumo. Isso onera aqueles que são mais pobres. É totalmente regressivo. E aí teríamos que transitar para ele ser menos sobre o consumo e mais sobre a renda privada individual. E teríamos uma variação para o imposto de renda jurídico ser um pouco menor do que o de pessoa física, para estimular investimentos. Para agora, é isso.”
CENA POLÍTICA
No 13º Encontro de Lideranças, realizado pela Rede Gazeta no último fim de semana, um dos palestrantes foi o governador Paulo Hartung. Bem-humorado, ele brincou consigo mesmo, dizendo à plateia que, após o encerramento do governo, ficará desempregado. O diretor de jornalismo da empresa, Abdo Chequer, que mediava o debate, respondeu com outra brincadeira. O governador então replicou: “Nem governador eu sou neste momento. Sou só seu amigo”. É que, minutos antes, na entrada do auditório mesmo, ele havia acabado de assinar o ato transmitindo o cargo ao vice, César Colnago, já que logo depois do encontro embarcaria para a Inglaterra.
PARA A PREVIDÊNCIA
E sobre a reforma da Previdência, o que Rigoni defende? Em primeiro lugar, idade mínima fixa de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres, válida para todas as categorias. “Minha posição particular é que haja uma idade mínima, igual para todo mundo. Já pensei muito em diferenciarmos por profissão, por conta do desgaste físico etc. Seria ótimo. Mas o problema é que, se você for categorizar cada profissão, você cria uma guerra de ódio. E aí você destrói qualquer proposta. Não tem muito jeito. Vai ter que ser idade mínima igual.”
ALERTA 1: TRANSIÇÃO
Além da fixação da idade mínima padronizada, Rigoni defende tempo mínimo de contribuição de 25 anos; regime único de aposentadoria para servidores públicos e profissionais da iniciativa privada; e substituição do atual regime de contribuição por um regime de capitalização individual, no qual cada trabalhador paga ao longo dos anos de serviço para financiar a própria aposentadoria lá na frente, quando encerrar a carreira. Ele alerta, porém, que a transição de um regime para o outro tem que ser “muito bem calculada”. “Se não for, a gente quebra o Brasil ainda mais.”
ALERTA 2: CONTRAPARTIDA
Rigoni admite que a mudança nas regras não é “nada popular e nada fácil”. “Mas é a realidade. Na prática o que vai acontecer é que as pessoas vão se aposentar mais tarde e receber menos.” Por isso, entende Rigoni, ao lado da reforma previdenciária, o governo precisará dar uma contrapartida social muito forte para a população, em termos de qualificação dos serviços públicos, renda, bem-estar, melhores condições de vida.