André Garcia*
Com a Operação Lava Jato, o crime organizado passou a entrar no foco de preocupação de todos os brasileiros. Autoridades ou cidadãos comuns foram obrigados a conviver com repetidas manchetes sobre as diversas fases da referida operação e suas inúmeras prisões de pessoas, até então, consideradas imunes ao poder de persecução do Estado. Sem dúvida, algo a ser comemorado.
Mas o crime organizado não se resume aos casos de corrupção e crimes do colarinho branco. Há uma face também organizada que emergiu das profundezas da criminalidade comum e conseguiu, de forma articulada e com práticas semelhantes às adotadas por grupos mafiosos, dominar, em sua quase totalidade, o sistema prisional brasileiro e influenciar, sobremaneira, os crimes comuns que atingem o cidadão no dia a dia.
Com uma mensagem de união e fortalecimento do crime e de proteção de criminosos e seus familiares, as facções criminosas conseguiram se impor e recrutar, em quantidades cada vez mais significativas, hordas de jovens que ingressam todos os dias nas prisões.
Todo mecanismo de atuação das facções criminosas depende umbilicalmente do domínio do sistema prisional e de uma azeitada linha de comunicação com criminosos que atuam fora dos presídios. Aliás, a busca desse domínio tem nos últimos anos se intensificado e colocado em campos opostos duas das maiores facções originárias dos sistemas prisionais paulista e carioca, a saber, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Sindicato do Crime, Família do Norte (FDN), Primeiro Grupo Catarinense (PGC), Amigos dos Amigos (ADA) e vários outros grupos com articulação local são aliados na guerra deflagrada entre as principais facções do país.
Os episódios de terror que ocorrem no Ceará e os confrontos de grupos rivais em unidades prisionais no Norte e Nordeste revelam a face cruel e primitiva dessa guerra sem fim.
Para encarar essa outra face do crime organizado, será tarefa de Sérgio Moro articular com os Estados formas de rastreamento e bloqueio do dinheiro que financia as ações desses grupos, monitorar a atuação das facções dentro e fora dos presídios, impedir a comunicação com o mundo externo, isolar e separar as lideranças e profissionalizar e valorizar o trabalho dos inspetores penitenciários.
Somente com a retomada do controle do sistema prisional será possível criar as condições mínimas necessárias para um serviço de segurança pública eficaz e condizente com os anseios do cidadão brasileiro.
*O autor é ex-secretário de Segurança Pública