Falar abertamente sobre a prevenção do suicídio deixou de ser um assunto velado na sociedade brasileira, em grande parte devido à consolidação da campanha Setembro Amarelo, iniciada em 2015.
No entanto, a forma como a mídia e as redes sociais abordam o tema carrega uma profunda responsabilidade pública, podendo tanto oferecer suporte acolhedor quanto disparar gatilhos emocionais graves.
Na literatura científica e nos manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa dualidade é compreendida a partir de dois fenômenos opostos: o Efeito Werther, caracterizado pelo potencial de contágio social, e o Efeito Papageno, voltado para a prevenção e proteção da vida.
O Efeito Werther refere-se ao risco real de aumento no número de óbitos por suicídio após a divulgação inadequada ou sensacionalista de um caso. O termo remonta ao romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, cuja publicação foi seguida por uma onda de suicídios por imitação na Europa.
Para evitar esse contágio, diretrizes técnicas orientam omitir minuciosamente a cena, o método e os locais utilizados. Da mesma forma, constituem graves fatores de risco a exposição sensacionalista de fotos ou cartas de despedida, o uso do termo “cometer” - que associa o ato a um crime -, a glorificação da vítima como herói ou mártir, a busca por culpados, a associação com crenças religiosas e as explicações simplistas que reduzem o acontecimento a uma única causa motivadora.
Em contrapartida, a veiculação midiática responsável pode exercer uma função protetiva indispensável, denominada Efeito Papageno. O conceito inspira-se no personagem da ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart, que desiste de tirar a própria vida ao receber o auxílio de amigos para enxergar saídas alternativas para seu sofrimento.
O estímulo a esse efeito protetivo ocorre quando as notícias abordam o suicídio sob a ótica da saúde pública, utilizando dados e especialistas confiáveis. A cobertura preventiva explicita os sinais de alerta de comportamento suicida demonstra empatia com os enlutados, apresenta estratégias práticas de enfrentamento para a pessoa e seus familiares e divulga canais atualizados de apoio, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), os serviços do SUS e os atendimentos psicológicos universitários.
Apesar das recomendações internacionais, pesquisas sobre a cobertura jornalística no Brasil revelam que veículos da imprensa brasileira publicam cerca de 70% de suas reportagens sobre o tema com ao menos um trecho contraindicado pela OMS, enquanto 45% não trouxeram nenhum tipo de conteúdo preventivo. No panorama geral estudado, 40% das notícias tinham potencial para induzir ao Efeito Werther e apenas 23% ao Efeito Papageno.
Além disso, a divulgação de detalhes sobre o método e o local ocorreu em 35% dos textos. Esses dados evidenciam como o interesse comercial por audiência e repercussão muitas vezes prevalece sobre o compromisso com uma cobertura responsável, acompanhado por um enfoque médico-psiquiátrico individualizante que simplifica o fenômeno a causas únicas e oculta fatores psicossociais complexos.
Essa conduta midiática ganha contornos ainda mais críticos durante o Setembro Amarelo, movimento que trouxe visibilidade inédita ao tema ao estimular debates sociais, duplicar a busca por atendimento no CVV e impulsionar marcos legais importantes.
No entanto, a responsabilidade dos veículos de comunicação e dos profissionais de imprensa torna-se evidente quando a cobertura se limita a uma abordagem sazonal e superficial.
A veiculação recorrente e não regulada de informações por leigos ou por matérias jornalísticas sem rigor técnico gera o risco constante de fornecer gatilhos emocionais e alimentar o contágio.
Sem um compromisso jornalístico permanente, campanhas pontuais falham em reduzir estatisticamente as taxas de mortalidade e podem até coincidir com aumentos pontuais de ocorrências entre jovens, demonstrando que o jornalismo precisa atuar de forma contínua e integrada à saúde pública.
A responsabilidade social dos jornalistas reside nas escolhas editoriais e na linguagem adotada ao construir cada notícia. Por ocuparem uma posição central na formação da opinião pública e na difusão de valores, a mídia e seus profissionais não podem tratar o suicídio com sensacionalismo ou julgamentos morais.
Quando as redações optam por manchetes que enfatizam motivações simplistas para atrair cliques, reduzem em 80% a probabilidade de informar estratégias de enfrentamento e aumentam o risco de contágio. Por outro lado, quando o jornalismo assume uma postura ativa de prevenção, pautando o que fazer e como buscar ajuda, o potencial protetivo das notícias aumenta significativamente.
Trata-se, portanto, de uma escolha consciente do jornalista entre alimentar a espetacularização do sofrimento ou atuar como um agente de promoção da saúde.
Diante desse cenário, supera-se a lógica do jornalismo caça-cliques somente quando os meios de comunicação incorporam as diretrizes da OMS como um código ético inegociável em sua rotina diária. A verdadeira contribuição da imprensa para a prevenção do suicídio exige abandonar coberturas alarmistas e migrar definitivamente para o Efeito Papageno.
Isso requer que jornalistas consultem especialistas qualificados, contextualizem o fenômeno em sua dimensão psicossocial e multifatorial e veiculem de forma sistemática e visível os canais de apoio disponíveis.
Somente por meio de um compromisso profissional ético, contínuo e fundamentado na empatia, a mídia brasileira conseguirá cumprir seu papel social de informar com responsabilidade e transformar a comunicação em um instrumento permanente de proteção à vida.