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Artigo de Opinião

Saúde

Realidade de enfermeiros reflete o tratamento dado à categoria

A garantia do Direito à saúde e à vida também depende da valorização desses profissionais

Publicado em 10 de Maio de 2019 às 22:04

Publicado em 

10 mai 2019 às 22:04
Profissional de Enfermagem
Elda Bussinguer*
Comemora-se hoje, no mundo inteiro, o Dia Internacional da Enfermagem. Enquanto no Brasil a data é ignorada e apenas seus exercentes dela se lembram, as Nações Unidas e o Palácio de Buckingham se movimentam em uma grande campanha a favor da valorização das enfermeiras.
No ranking das profissões mais bem avaliadas na Inglaterra, a enfermagem ocupa o 1º lugar, há vários anos. No Brasil, enfermeiros são mal-remunerados, ignorados, desvalorizados, invisibilizados e recebem salários incompatíveis com a responsabilidade das ações que desempenham. O valor que damos à vida humana ou nossa ignorância acerca da profissão é, sem sombra de dúvidas, o que sustenta essa discrepância.
Se relacionarmos o valor das profissões com os salários a ela destinados, veremos que, no Brasil, a vida humana vale muito pouco. A pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil 2017, mostra que as enfermeiras recebem em torno de dois a três salários mínimos e os técnicos e auxiliares de enfermagem em torno de um a dois. Além disso, estão insatisfeitas, cansadas, muitas doentes, sem vida social e desvalorizadas socialmente, dentre outros problemas.
Quando os enfermeiros fazem uma greve, ninguém comenta ou se mobiliza para encerrá-la. Deixam que morra por inanição. A injustiça histórica que acompanha o salário de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem no Brasil é demonstrativa do valor que damos à saúde e à vida humana. Negar a esses trabalhadores o Direito a um salário digno e justo, sob o argumento de que aumentos superiores aos oferecidos pelo patronato podem causar desequilíbrio econômico aos serviços de saúde, é ignorar o lucro que os hospitais e clínicas têm obtido nos últimos anos. Se não fosse assim, por que tantas empresas de capital internacional estariam comprando todos os hospitais no Espírito Santo e no Brasil? Que ética sustenta a definição do que seja um salário justo e digno?
Esses profissionais, que trabalham em 2, 3 empregos, dobrando plantões, para sobreviver, e convivem com a histórica desvalorização, são os mesmos que, após 12 horas em um plantão noturno, em um pronto-socorro qualquer, se dirigem, apressadamente, para não chegarem atrasados, ao plantão em uma UTI Neonatal, onde irão cuidar, talvez, de um bebê prematuro, que poderá ser, por coincidência, o filho do empresário que lhe paga o salário, do desembargador que lhe negou o aumento e/ou declarou sua greve ilegal ou de qualquer um de nós outros, que nunca imaginamos existir ali alguém importante para nossa vida. Talvez, uma injeção errada, por cansaço ou desatenção, poderá levar à morte aquele a quem amamos e em quem depositamos nossos sonhos, projetos e esperanças.
A garantia do Direito à saúde e à vida também depende de enfermeiros valorizados, bem remunerados, capacitados e descansados.
*A autora é doutora em Bioética e coordenadora do Doutorado em Direito da FDV
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