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Fernando Saliba

Artigo de Opinião

É presidente do movimento Espírito Santo em Ação
Fernando Saliba

Quatro décadas de futuro: como o Espírito Santo aprendeu a planejar além dos governos

Construímos uma cultura rara no Brasil: a de transformar visões de longo prazo em política de Estado. A trajetória tem lições para todo o país
Fernando Saliba
É presidente do movimento Espírito Santo em Ação

Publicado em 08 de Maio de 2026 às 15:30

Publicado em 

08 mai 2026 às 15:30

Em 1985, o Espírito Santo deu um passo incomum. A Rede Gazeta, em parceria com a Ufes, o Bandes e outras instituições, lançou o ES Século XXI, uma iniciativa que reuniu centenas de capixabas para debater, de forma participativa, que Estado queriam construir para as gerações seguintes. Era um exercício coletivo de imaginar o futuro.


Aquela semente, porém, não floresceu de imediato. Faltou o que falta à maioria dos planos de longo prazo no Brasil: articulação público-privada para acompanhar a implementação e visão de estadista de governantes de então, para transformar diagnósticos em decisões concretas. O ES Século XXI ficou na história como pioneiro metodológico, mas sem a continuidade institucional necessária para incidir sobre a realidade.


A virada veio no século seguinte, e ela tem nome e endereço.

O catalisador da mudança — e quem o acolheu

Em 2003, diante de uma grave crise institucional marcada por denúncias de corrupção e desmandos na área pública, 16 empresários e executivos capixabas fundaram o Movimento Espírito Santo em Ação, entidade cujo modelo era inédito no país.


Mais do que uma organização de advocacy empresarial, o ES em Ação nasceu com uma visão clara sobre o problema central da política pública brasileira: a descontinuidade. Um de seus eixos estratégicos permanentes é a "Estratégia de Longo Prazo", o compromisso de defender políticas públicas perenes que resistam às alternâncias de poder.


Mas sociedade civil não transforma sozinha a cultura de planejamento de um Estado. O que tornou a experiência capixaba singular foi a combinação: de um lado, uma organização disposta a cobrar continuidade; de outro, governos com visão estadista suficiente para incorporar essa agenda ao arcabouço de governança do Estado, mesmo quando isso significava honrar compromissos de administrações anteriores de orientação política diferente.


O ES em Ação foi articulador dos três ciclos que se seguiram, do plano ES 2025, lançado em 2006, e dos planos subsequentes. Mas foram os governos capixabas que, a cada ciclo, fizeram a escolha política de retomar, aprofundar e institucionalizar o processo, culminando na decisão de ancorar o ES 500 Anos em lei estadual e converter uma prática recorrente em obrigação de Estado.

Três planos, um fio condutor

O ES 2025 representou um salto operacional: além do diagnóstico e da visão de futuro, definiu metas concretas, uma carteira de projetos prioritários e um sistema de governança envolvendo Estado, setor privado e sociedade civil.


O ES 2030, lançado em 2013, aprofundou essa lógica ao tomar como ponto de partida obrigatório os indicadores do ciclo anterior. Era um sinal de maturidade institucional: o planejamento começava a aprender consigo mesmo, revisando o que havia sido pactuado antes de formular novos objetivos.


O ES 500 Anos, lançado no ano passado, foi ainda mais longe. Instituído por lei estadual, com governança permanente, Observatório das Missões para monitoramento contínuo de indicadores e prioridades explícitas por setor econômico, o plano deixou de ser um documento de orientação estratégica para se tornar uma política de Estado, com força normativa.

ES 500 Anos: planejamento estratégico do Estado do Espírito Santo
ES 500 Anos: planejamento estratégico do Estado do Espírito Santo Abdo Filho

Além disso, os planos foram concebidos como instrumentos vivos e dinâmicos, capazes de incorporar novas demandas, revisar prioridades e acompanhar as transformações da sociedade ao longo do tempo.

Plano de Estado, não de governo

A distinção pode parecer sutil, mas é decisiva. Um plano de governo dura enquanto dura quem o criou. Um plano de Estado cria obrigações que transcendem mandatos, eleva o custo político de abandonar prioridades pactuadas e torna qualquer governante responsável por uma agenda que herdou, não apenas pela que escolheu.


Essa transição não foi automática. Foi construída ao longo de ciclos sucessivos de aprendizagem e coordenação, nos quais cada rodada tornou o abandono da prática mais custoso e o engajamento mais natural. A ancoragem legal do ES 500 Anos é o ponto de chegada desse processo, não o seu ponto de partida.


O aprendizado mais transferível da experiência capixaba é justamente esse: não basta ter um bom plano, nem uma boa organização da sociedade civil. É preciso que governo e sociedade construam, juntos, a convicção de que planejar o longo prazo é mais inteligente e mais legítimo do que começar do zero a cada mandato.

O teste que ainda está por vir

A trajetória capixaba é exemplar em muitos aspectos. Mas seria ingênuo celebrá-la como caso encerrado. O teste decisivo do ES 500 Anos será sua capacidade de incidir sobre decisões orçamentárias concretas e rotinas administrativas cotidianas, e não apenas sobre intenções estratégicas. 


Nenhum Estado brasileiro fechou esse gap de forma consistente. Fechá-lo exigirá, nos próximos anos, a mesma combinação de pressão social e vontade política que tornou possível chegar até aqui.



* Este artigo tem como base o estudo "Quatro décadas de planejamento para o desenvolvimento de longo prazo (1985–2025): análise da trajetória do estado do Espírito Santo à luz do conceito de path dependence", apresentado no II Congresso CONSEPLAN por pesquisadores da Secretaria de Economia e Planejamento do Espírito Santo e do Instituto Federal do Espírito Santo.

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