O Setembro Amarelo é a campanha dedicada à prevenção do suicídio, momento para lembrarmos que doenças mentais não tratadas adequadamente podem levar algumas pessoas a desistirem da própria vida.
Na pós-pandemia a discussão sobre saúde mental é urgente, num país onde o índice de afastamento de trabalhadores por motivos psiquiátricos aumentou 20% só no ano de 2023, segundo dados de uma pesquisa da It’sSeg Company.
Apesar de ser um fenômeno multicausal, sabemos que há atividades que tornam o trabalhador mais exposto ao adoecimento mental, ser policial é uma dessas profissões. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que desde 2015 foram registrados 821 suicídios de policiais no Brasil, sendo 133 apenas em 2023, o pior registro da história do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
O Anuário de Segurança Pública de 2024 alerta para o aumento de 26,2% da taxa de suicídios de policiais. Fica evidente que a questão, que é complexa e multifacetada, precisa ser prioridade na gestão das instituições de segurança pública, mas, infelizmente, ainda é tratada de forma superficial e amadora num país em que morrem mais policiais por suicídio do que em serviço.
Precisamos falar sobre adoecimento mental e suicídio de policiais com responsabilidade. Enfatizar que as estatísticas são subnotificadas, que o preconceito atrapalha a prevenção e a omissão das corporações também é um fator que pode amplificar o problema.
Além de fatores pessoais, o adoecimento mental de policiais pode também estar ligado à estrutura organizacionais de trabalho, marcada por relações de poder desiguais e injustas, por um ambiente hostil e arbitrário, pela cultura que banaliza os impactos da violência e os efeitos nocivos do estresse. Tudo potencializado pela “aura de heroísmo” que envolve o policial, na qual ele é doutrinado a sempre dar conta e cumprir a qualquer custo seu papel.
Um policial adoecido tem medo de ter seu armamento recolhido, de ser estigmatizado e ridicularizado pelos colegas. Dessa forma, às vezes, vai para sua missão com a saúde comprometida, sendo perigo para si, para a equipe de trabalho e para a sociedade.
Apesar das evidências sobre o risco de um policial em adoecimento mental com uma arma na mão, a maioria das corporações policiais se esquiva do problema ou usa um malabarismo narrativo de que “fazem pedidos de concurso para profissionais de saúde” ou que “possuem programas de promoção à qualidade de vida”, geralmente com ações paliativas e desconectadas das reais necessidades dos policiais.
Investir na polícia não é só comprar viaturas e armamentos modernos, é também cuidar do seu capital humano na perspectiva da saúde do trabalhador e da garantia de direitos. É efetivar programas institucionais de acompanhamento psicossocial com equipes multidisciplinares de saúde para cuidar de quem cuida da nossa sociedade. Afinal, policiais são capazes de atos heroicos, mas também são vulneráveis.