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Precisamos construir pontes, onde barreiras teimam em se erguer

Se você é cristão e desacredita dos direitos humanos, talvez seja o momento de repensar. Afinal, muito antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão o apóstolo Paulo já inaugurava processos inclusivos das minorias da época

Publicado em 19/04/2020 às 14h00
Atualizado em 19/04/2020 às 14h00
Direitos humanos deve ser direito de todos
Em vez de identificar o diferente como inimigo, devemos incluir. Crédito: Divulgação

“Quem não é por mim está contra mim, e quem comigo não ajunta espalha.” A frase poderia ser um slogan da campanha fascista, mas é uma passagem bíblica inserta em Lucas 11:23. Como vemos, polarização não é novidade inaugurada pelos movimentos totalitários. A identificação de um inimigo que possa unir os dissidentes não é estratégia inédita. A política foi assim construída há muitos anos, atingindo seu ápice nos regimes fascistas.

Todavia, não poderíamos atribuir tamanha ofensa ao cristianismo. Afinal, Cristo demarcou claramente suas crenças sem excluir o diferente: pregou pureza e acolheu prostitutas, ordenou fidelidade tributária e sentou-se à mesa com publicanos; viveu em santidade, mas conviveu com pecadores.

Delimitar nossa identidade, portanto, não pode implicar o desejo de eliminação de outras identidades, de outras concepções de vida e existência, sob pena de que o cristianismo, ou qualquer outra cosmovisão, se torne, pura e simplesmente, fascismo.

De modo semelhante aos ensinamentos de Cristo, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão desde 1789 proclama a igualdade que nos permite liberdade para manifestar nossa individualidade e idiossincrasias sem medo de perseguição, política, religiosa, étnica ou de qualquer outra natureza.

Se você é cristão e desacredita dos direitos humanos, talvez seja o momento de repensar. Afinal, muito antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão o apóstolo Paulo já inaugurava processos inclusivos das minorias da época: portanto, não há mais judeu, nem grego, escravo nem liberto, homem ou mulher, estrangeiros ou peregrinos, porque todos vós sois um em Cristo (Gl. 3:28 e Ef. 2:19).

Se etimologistas divergem acerca da origem do termo religião – seria religare, voltar a ligar, ou relegere, ler e reler – escolho como sentido possível, poético talvez, que a religião seja, de fato, capaz de nos ligar novamente com o divino e, nesse processo, permita que nos reconectemos e sejamos capazes de construir pontes, onde barreiras teimam em se erguer.

Escutemos, pois o chamado – cristão e laico – no lugar da identificação do diferente como inimigo, a inclusão do outro! Superemos o fascismo! l

A autora é advogada, mestre em Direito pela PUC-MG e doutoranda em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV

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