
Thomas Traumann*
Ministros da Economia do Brasil têm o pior emprego do mundo, mas, às vezes, surge por alguns instantes uma oportunidade feito um meteoro cruzando o céu. Comandante da fusão dos antigos ministérios da Fazenda, Planejamento, Indústria, Trabalho e Previdência, Guedes está com as mãos atadas desde que enviou ao Congresso a proposta de emenda constitucional reformando a Previdência. Toda a agenda do ministro depende da aprovação da reforma, como um funil reduzindo o fluxo de outras urgências.
Ao mesmo tempo, Guedes sofre uma pressão por medidas para reanimar a economia. Pesquisa do Banco Central com os principais operadores do mercado reviu para baixo pela 15ª vez consecutiva a previsão do PIB deste ano, agora para apenas 1%.
A fragilidade das vendas no varejo e a altíssima capacidade ociosa da indústria indicam zero perspectiva de melhora no curto prazo, mesmo com a aprovação de uma reforma da Previdência robusta. Sem nenhum ímpeto de produzir milagres e com a pauta do Congresso bloqueada, Guedes está perto de, como vários de seus antecessores, ser acusado de “não fazer nada” ou “não ligar” para o destino dos desempregados e empresários sem fôlego. A paciência é produto raro em tempos de crise.
As circunstâncias políticas internas também não são animadoras. O ministro da Justiça, Sergio Moro, está sob suspeita de interferência nas investigações que levaram à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como revelou “The Intercept”. O presidente Jair Bolsonaro parece alheio à situação, desperdiçando tempo em polêmicas, enquanto os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, assumem o protagonismo de tocar a agenda do mundo real, da reforma da Previdência ao novo marco do saneamento.
A janela da oportunidade para Guedes se abriu com a sentença do plenário do Supremo Tribunal Federal autorizando a venda de subsidiárias das estatais e companhias de economia mista sem prévia autorização parlamentar. A sentença é fundamental para os investidores porque, como se trata de decisão coletiva da Corte, concede segurança jurídica a decisões de longo prazo.
Com a sentença do STF, Guedes vira dono do seu próprio tempo. A venda de subsidiárias da Petrobras e da Eletrobras ajuda o caixa federal baqueado com os anos de estagnação. Mas o seu principal efeito é nas expectativas. Ao poder oferecer o controle de uma BR Distribuidora, Guedes pode mudar o humor do mercado e gerar um feel good factor capaz de influenciar o Congresso nas votações das reformas da Previdência e tributária.
A política de polarização do presidente Bolsonaro é maléfica para a economia. Gera arestas no Congresso, dificulta o diálogo com o empresariado e a mídia e abre possibilidades de boicotes a produtos do país lá fora. Um ministro sob pressão tem poucas chances para virar o jogo. Guedes conseguiu a sua oportunidade.
*O autor é jornalista, comentarista da Rádio Globo, pesquisador da FGV, ex-ministro de Comunicação e autor do livro “O pior emprego do mundo”