Neste Setembro Amarelo, precisamos falar sobre saúde mental. Mas proponho começar um pouco antes: antes do burnout, do afastamento, da exaustão se transformar em adoecimento e de alguém acreditar que precisa enfrentar tudo sozinho.
Durante muito tempo, a conversa sobre saúde mental nas empresas se concentrou no que fazer quando o sofrimento já estava instalado. Acolher, encaminhar e oferecer tratamento são medidas indispensáveis. Mas há uma pergunta anterior: que tipo de ambiente estamos construindo para que as pessoas possam ficar bem?
A Organização Mundial da Saúde reconhece que o trabalho pode proteger a saúde mental ao oferecer propósito, relações e pertencimento. Também alerta para riscos como sobrecarga, baixo controle sobre o trabalho, insegurança, discriminação e assédio. Segundo a OMS, depressão e ansiedade estão associadas à perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com custo estimado em US$ 1 trilhão em produtividade.
Os números não significam que a saúde mental deva ser medida apenas pelo resultado financeiro. Revelam que cuidar das pessoas e sustentar a organização não são agendas concorrentes, mas dimensões do mesmo desafio.
Saúde mental é construída ou desgastada nas experiências cotidianas: na resposta de um líder quando alguém erra; na segurança para discordar; na clareza das prioridades; na possibilidade de pedir ajuda sem ser visto como fraco; no respeito ao descanso; na qualidade das relações e na certeza de que comportamentos abusivos não serão tolerados em nome da performance.
É nesse contexto que entra a segurança psicológica: a percepção de que é possível falar, perguntar, admitir limites e apontar riscos sem medo de humilhação ou punição. Ela não elimina responsabilidade nem reduz padrões. Ao contrário, permite que problemas apareçam cedo, quando ainda podem ser discutidos e corrigidos.
Também precisamos superar a ideia de que promover saúde mental significa apenas oferecer ferramentas individuais. Meditação, atividade física, sono e regulação emocional são importantes, mas não podem servir para adaptar pessoas a jornadas impossíveis, metas incoerentes ou culturas tóxicas. Evidências mostram que intervenções, como mudanças na jornada, na organização das tarefas e no ambiente psicossocial, podem melhorar as condições de trabalho e o bem-estar.
À empresa cabe identificar e reduzir riscos psicossociais, criar políticas coerentes e oferecer canais de apoio. À liderança construir segurança, clareza, justiça, reconhecimento e condições reais de trabalho. Às pessoas desenvolver recursos de autocuidado e buscar ajuda, sem assumir sozinhas a responsabilidade por problemas criados pelo sistema.
Setembro Amarelo é um convite ao acolhimento e à busca de ajuda, mas também à prevenção: olhar para o que acontece antes do pedido de socorro. Uma organização demonstra cuidado não apenas quando oferece suporte na crise, mas quando cria condições para que as pessoas não precisem chegar ao limite para serem ouvidas.
Talvez a pergunta mais transformadora neste mês não seja apenas ‘como podemos ajudar quem não está bem?’, mas também ‘que ambiente estamos ajudando a construir para que as pessoas possam ficar bem?’