
Flávio Barroca e Garcia*
“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei [...]”
Este é um trecho da poesia de Manuel Bandeira “Vou-me embora pra Pasárgada”, publicada no livro “Libertinagem”, em 1930. Naquela época, o poeta pernambucano talvez não imaginasse o que realmente seu poema representaria no seio da sociedade que se formou neste país outrora chamado de terra brasilis. Considerado um país livre, o Brasil se autodefine “democrático”.
Democracia, por sua vez, tem origem no grego demokratia. Sua versão em latim era democratia, mas provém de duas palavras gregas: “demos”, que significa povo, distrito, e “kratos”, que significa domínio, poder. Democracia é, portanto, “poder do povo” ou “governo do povo”.
Sob a perspectiva do silogismo aristotélico, se o Brasil é uma democracia e a democracia é o “governo do povo”, logo, o povo governa o Brasil. Será? Vejamos.
Em terras tupiniquins, talvez Aristóteles e sua lógica não se apliquem assim tão facilmente. No Brasil, vale mais a ótica manuelina, e o que mais importa é ser “amigo do rei”.
O vocábulo “amigo” vem do latim “amicus”, e significa preferido, amado. Tem origem no verbo “amare” - em português, amar. É a amizade, portanto, uma forma de amor, leal e transparente.
Leal, sim. Transparente, nem tanto. O que se percebe no país é a prevalência dos “direitos dos amigos” em detrimento dos demais. Tal prática é tão arraigada em nossa cultura que já não percebemos quão nociva ela é. Vai desde a indicação do filho do amigo para o estágio no órgão público até a nomeação de ministros. A amizade é um sentimento latente que está presente em todos os níveis, desde a eleição para síndico do prédio até a indicação de cargos nas grandes empresas. Afinal, ser amigo exige lealdade, ainda que nenhuma transparência.
Na contramão da meritocracia, o Brasil vem se “construindo” numa crescente inversão de valores. Não interessa se o outro é bom, o “meu amigo” será sempre melhor. Por amizade se consegue emprego, cargos de confiança, funções gratificadas, ascensão profissional. Sob o pretexto da amizade se relativizam critérios, estendem-se benefícios, quebram-se regras. Nem sempre o “pau que bate em Chico bate em Francisco”, tudo vai depender de qual dos dois é seu amigo.
E se é para “latinear”, peço licença para um neologismo: Há muito se pratica no Brasil a amicuscratia – amigocracia, que nada mais é do que o “poder do amigo”.
Bem fez Manuel, foi embora para Pasárgada pra ser amigo do rei.
*O autor é mestre em História das Relações Políticas pela Ufes, professor de História do Direito e Direito Constitucional da Faesa