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Serge Katembera

Artigo de Opinião

Sociedade

"Meu delegado": fala de briga em SP revela a cultura individualista atual

Ela indica um tipo específico de modernidade e consagra uma maneira de se relacionar com a autoridade pública própria da ideologia do empreendedorismo
Serge Katembera

Publicado em 07 de Outubro de 2020 às 12:00

Publicado em 

07 out 2020 às 12:00
O restaurante Gero, em São Paulo, foi cenário de confusão entre clientes
O restaurante Gero, em São Paulo, foi cenário de confusão entre clientes Crédito: Reprodução/redes sociais
Um "fait divers" capturou a atenção dos brasileiros na última semana. Nas redes sociais e nos programas de televisão, discutiu-se a respeito da briga num restaurante de São Paulo. Nesse "brouhaha", uma frase chamou minha atenção, e quero utilizá-la para debater brevemente o que ela implica em termos sociológicos.
"Estou ligando para o MEU delegado!" Essa carteirada no meio da briga é reveladora da cultura individualista na qual a sociedade mergulhou. Ela indica um tipo específico de modernidade e consagra uma maneira de se relacionar com a autoridade pública própria da ideologia do empreendedorismo. Mas ela também sinaliza outra coisa.
E é exatamente aqui que chamo a atenção do leitor.
Nas culturas africanas, quando as crianças se referem a seus pais, elas não dizem "meu pai", elas dizem "nosso pai", "nossa mãe". Isso se deve à composição dos núcleos familiares onde há poucos casos de filhos únicos. E mesmo em uma situação particular, ao mencionar os pais, as crianças sempre utilizam o plural porque a experiência de ser filho não é vivida de modo individual.
Considera-se que sou filho com outros filhos, meus pais são meus pais ao mesmo tempo que são os pais dos meus irmãos. A filiação não é uma relação pensada individualmente, ela se pensa sempre na dimensão coletiva.
Em lingala, uma língua do Congo, se diz: "Papa na BISO [nosso]". O singular seria "Papa na NGAI [meu]". Essa segunda forma quase nunca é usada. Porém, quando se olha para as sociedades ocidentais, as pessoas empregam a forma "meu pai disse.", "minha mãe fez". A mesma forma aparece quando falamos "meu dentista", "meu médico".
Marcamos distinção, classe e marcamos nossa individualidade. É nesse instante que o pensamento liberal se destaca na esfera da língua. Ele se impõe como marca da modernidade ocidental, onde modernizar significa atomizar.
Em swahili, outro idioma africano, esse tipo de autorreferenciação se desmarca do modelo ocidental, especialmente quando evocamos Deus. "Baba YETU [nosso]" é a forma usada para dizer "nosso pai". Porém, nas religiões cristãs, quando as pessoas fazem um louvor a Deus, em geral elas usam o pronome "eu".
Fala-se "Mungu WANGU [meu]", para dizer "Meu Deus"; e "Nzambe na NGAI [eu]" em lingala. Nessas duas línguas, marcamos individualmente a relação com a divindade. Nesse aspecto, a ascese cristã impõe uma relação íntima com Deus e se sobrepõe às concepções coletivas da espiritualidade africana.
O autor é pesquisador e doutorando em Sociologia
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