Comumente ouvimos a citação bíblica de 1 Timóteo 2.1-2 quando alguns religiosos querem neutralizar críticas aos seus políticos de preferência, blindando-os piedosamente.
Contudo, nesse texto judaico-cristão não se afirma ser lícito legitimar religiosamente equívocos, espiritualizar injustiças ou aceitar pacificamente, como um sinal de fidelidade a Deus, os desmandos do governo.
Quando leituras de textos sagrados são usadas a fim de promover políticas totalitárias e violências, a divindade se torna legitimadora de barbáries. Não podemos esquecer que Romanos 13 foi usado na Alemanha nazista, e que nos Estados Unidos a Ku Klux Klan sempre encontrou nos textos da Bíblia fundamento para o racismo.
À vista disso, o que ocorreu nestes dias em Brasília não foi expressão de devoção cristã. A reunião de oração organizada por Silas Malafaia – que contou com a presença de Renê Terra Nova, R. R. Soares, um representante do Edir Macedo, Estevam Hernandes e outros – revelou-se como ato político e uso cínico da fé.
Entre tantas coisas absurdas, destaco duas. Durante sua oração, o paipóstolo Terra Nova, consultando o celular (talvez, a Bíblia on-line), “profetizou um decreto” usando Isaías 11.2: “sobre ele repousará o espírito de Deus, espírito de sabedoria...”.
Sob o auspício de uma hermenêutica desastrosa, tutelado por um texto usualmente lido de forma cristológica e aplicado ao Messias Jesus, o antigo líder do G12 irresponsavelmente lançou-o sobre o Messias Bolsonaro.
Depois disso, o encontro de oração continua e testemunhamos outro momento escandaloso. Um pastor afirma ter recebido de Deus uma mensagem. Após defender a necessidade de as famílias renderem-se a Cristo, cita Isaías 54.17, quando o profeta fala da proteção divina sobre Jerusalém contra seus inimigos, cujas acusações serão denunciadas como caluniosas (“toda língua que te acusar em juízo tu a provarás culpada”).
Propositalmente ou não, tal uso da Bíblia desqualifica as críticas à atuação do presidente, tipifica como ato dos inimigos de Deus qualquer ação dos poderes institucionais contra os absurdos do governo e abusos dos seus aliados, faz de Bolsonaro um justo do Senhor e legitima todos os seus equívocos. Ou seja, para estarmos do lado de Deus precisamos aceitar religiosa e passivamente as ações do governo federal.
O evento do dia 5 de junho de 2020 será lembrado na história como a oração da perversidade!
*O autor é pastor, doutor em Ciências da Religião e escritor