Verônica Bezerra*
Uma rotina entre voos, ensaios, fonoaudiólogo e psicólogo, além da atenção por parte da mídia e sociedade, fizeram parte do cotidiano de Jeremias Reis nesses últimos meses. Um menino negro, pobre e da periferia, que atravessou uma estrada ambígua entre o sonho e a realidade. Entre a fama e a morte.
As comemorações e holofotes são válidos neste momento de festa, mas precisamos olhar para o retrovisor da história de Jeremias, que rompeu barreiras da violência e da pobreza. Jeremias mora em Central Carapina, um bairro do município de Serra (ES) que acumula altos índices de homicídios, que em sua maioria as vítimas são jovens negros, como Jeremias. O menino que bradou sua voz ao mundo poderia ter o destino como de tantos, e sentir seu talento soterrado pela violência. Contudo, a interceptação de um destino previsível possibilitou a Jeremias, hoje, contar outra história, que deveria também ser de muitos meninos, de Central Carapina ou outro bairro qualquer.
A interceptação foi realizada por meio de um projeto social, executado por uma entidade da sociedade civil, que há 20 anos indica outro caminho para milhares de crianças, adolescentes e jovens. Trata-se da Rede AICA (Assistência Integrada à Criança e Adolescente), composta de oito projetos, que atende crianças e adolescentes em situação de risco social, proporcionando-lhes no contra turno atividades complementares, entre elas, a música. Foi ao som dos acordes que o destino de Jeremias fez uma conversão de rota. Deixou de ser estatística, tornou-se estrela.
Em Central ou em outro bairro de periferia existem muitos Jeremias, que precisam somente de uma oportunidade real e perene, e não aquela vendida pelo mercado, apelidada de meritocracia e concedida pontual e superficialmente. A miríade de meninas e meninos da periferia sabem fazer ecoar seus talentos e desejam realizar seus sonhos, só precisam que Políticas Públicas de Educação, Saúde, Assistência, Habitação, Segurança e Lazer, lhes sejam garantidas, para que o acesso aos Direitos Fundamentais seja uma realidade, e não uma esmola, como preconiza o ECRIAD.
Cumpra-se a Lei 8.069/1990 e ouvir-se-á todos os dias, e não somente aos domingos, o canto da liberdade e da esperança, ecoando em todos os cantos e vindo da periferia, em vez de continuarmos a realizar romarias aos cemitérios para sepultar nossa meninada.
* A autora é advogada, coordenadora de Projetos do Centro de Apoio aos Direitos Humanos e mestranda da FDV