Há cinco séculos, em Wittenberg, Martinho Lutero pregou suas 95 teses, marco simbólico da Reforma Protestante. A cristandade, de um modo ou de outro, ainda celebra essa data como ponto de virada. Costuma-se retratar Lutero como o herói e divisor de águas da fé, e o 31 de outubro como um tempo mítico, quase sagrado. Sem negar sua importância, é necessário situá-lo na longa história da reforma da Igreja — processo que não começa nem termina na Alemanha — e lembrar de outros e outras que prepararam esse terreno.
O acontecimento de 1517 foi mais espuma do que onda: resultado visível de profundas transformações religiosas e culturais já em curso. Como aponta Le Goff, os grandes eventos são apenas o reflexo das mutações silenciosas que os antecedem. Antes de Lutero, vozes dissonantes já contestavam a estrutura eclesiástica.
Lutero foi, portanto, a ponta de um iceberg histórico, beneficiado por contextos sociais, econômicos e culturais favoráveis. Seu movimento desencadeou transformações que ultrapassaram a religião e alcançaram a arte, a política e a economia. Mas o reformador não foi o fim do processo. O pós-1517 consolidou princípios como sola scriptura, sola fides, solus Christus, sola gratia e soli Deo gloria, enquanto outros reformadores — como Thomas Müntzer, Andreas Karlstadt e os anabatistas — ampliaram a dimensão revolucionária da Reforma.
Celebrar o 31 de outubro é reconhecer um marco. Mas a frase de Gisbertus Voetius, Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (Igreja reformada sempre se reformando), permanece atual: a Igreja reformada precisa continuar se reformando. Ainda há resistências em retornar às Escrituras por medo de perder poder; ainda existem legalismos que negam a graça; e há igrejas que buscam glória própria ou confundem fé e Estado. Por isso, ser protestante hoje é assumir que a fé cristã continua em transformação, chamada a renovar-se sempre à luz do Evangelho.
Se não for assim, deixará de ser uma fé “reformada” para se tornar caça às bruxas.