
Arthur Leal Abreu e Flávia Marchezini*
Combate à corrupção, ética e transparência são demandas que a população tem em relação aos políticos, empresários e instituições. Não podemos esquecer, contudo, que a corrupção no Brasil é endêmica e, assim, como um vírus letal, atinge todos os setores da sociedade, sendo nosso dever combatê-la em nossos pequenos atos.
No Paraná, foi realizado um experimento social que ficou famoso e se espalhou pelo Brasil: o “teste do picolé”. Trata-se de um teste de honestidade: um freezer com picolés fica à disposição em um ambiente coletivo, sem ninguém por perto vigiando ou cobrando. Experimenta a confiança na integridade de cada cidadão, que se manifesta, principalmente, na ausência dos mecanismos de controle. Cabe a cada cidadão fazer o que é certo porque é certo – e não em razão de uma sanção iminente por descumprimento das normas.
Entretanto, não é isso que se verifica ao observarmos o trânsito da Grande Vitória. Nos horários de pico, formam-se filas de veículos nas principais vias de acesso e motoristas impacientes utilizam a contramão ou a faixa da esquerda para furar a fila. Esse comportamento denota uma falta de respeito com o outro, uma pretensão de superioridade – como se o seu tempo valesse mais que o do restante das pessoas. São muitas as justificativas mentais para essas “manobras”, que atrapalham o trânsito, provocam obstruções e até acidentes.
Em Vila Velha, por exemplo, no acesso matinal à Terceira Ponte, essa situação é corriqueira. Quando há fiscalização pela Guarda Municipal, esses comportamentos são coibidos. Por outro lado, na ausência dos agentes, os motoristas “espertinhos” furam a fila implacavelmente. Há em nós um déficit ético, um lapso de integridade.
Como podemos esperar e cobrar comportamentos éticos dos nossos governantes se, no dia a dia, o cidadão busca se aproveitar de qualquer vantagem que lhe aparece? Como se afirmar intolerante com a corrupção, enquanto se praticam “pequenas” infrações cotidianamente?
Se é verdade que “cada povo tem o governo que merece”, façamos por merecer governantes melhores com nossos pequenos, porém grandiosos, gestos rotineiros. Nosso exemplo tem efeito multiplicador e pode contribuir significativamente para construir o Brasil que queremos.
*Os autores são, respectivamente, mestrando em Direito e especialista em Compliance pela FDV; vice-presidente de Compliance na Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas