Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Artigos
  • Contradições são da natureza de Bolsonaro, sem perspectiva de melhora

Artigo de Opinião

Política

Contradições são da natureza de Bolsonaro, sem perspectiva de melhora

Presidente agrada seu eleitorado hardcore para depois amenizar seu discurso para militantes moderados

Publicado em 31 de Maio de 2019 às 23:38

Publicado em 

31 mai 2019 às 23:38
Presidente Jair Bolsonaro
Thomas Traumann*
Os discursos do presidente Jair Bolsonaro são pendulares. Em um dia, ele diz que aqueles que fossem aos atos pró-governo para defender o fechamento do STF e do Congresso estariam “na manifestação errada”. Nas manifestações do domingo, repletas de ataques e pedidos de prisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, Bolsonaro preferiu destacar o “caráter democrático” dos atos. No mesmo dia, o presidente definiu as aglomerações sendo contra “aqueles que, com suas velhas práticas, não deixam que o povo se liberte”. À noite, anunciou que iria procurar Maia e o presidente do STF, Dias Toffoli, para “um pacto entre nós pelo Brasil”.
A dinâmica da retórica bolsonarista não é exclusividade do seu embate com a “velha política”. Semanas atrás, o presidente assumiu um acordo com o ex-juiz Sergio Moro para nomeá-lo ministro do STF. Dias depois, diante da repercussão negativa, recontou a história.
Com o ministro Paulo Guedes é pior. Bolsonaro cansou de elogiar e reforçar sua confiança no ministro, ao mesmo tempo em que defendeu idade mínima de aposentadoria para mulheres abaixo do previsto na reforma da Previdência e tentou intervir nos preços dos combustíveis.
São inúmeros os exemplos das idas-e-vindas das declarações e atos de Bolsonaro. Fosse outro o presidente seria possível concluir se tratar de um líder inseguro, fraco e volúvel. Mas não Bolsonaro. A ambiguidade do discurso presidencial é intencional, faz parte da construção do personagem de um homem sincero que chegou ao cargo mais alto do país.
É um método que vem desde os tempos nos quais o então deputado só tinha espaço em programas populares. Para ser chamado e garantir audiência nos programas, Bolsonaro cruzava a fronteira do politicamente correto e exibia teses de homofobia, racismo e misoginia.
Na campanha de 2018, perguntado por um executivo de banco sobre essas opiniões, Bolsonaro respondeu rindo “eu falava aquilo para chamar atenção. Ninguém ia olhar para mim se eu não fosse polêmico. Mas fora da TV eu sou outro”.
Uma vez presidente, Bolsonaro manteve sua comunicação do “não é bem assim”. Toda vez que é confrontado, o presidente se diz mal compreendido e culpa a imprensa. É um método.
A capacidade de dizer, se desdizer e culpar os outros não é exclusividade bolsonariana. O primeiro impulso, em geral, se dirige ao núcleo de seus apoiadores históricos. Só depois da polêmica posta, há o recuo. Assim, Bolsonaro agrada seu eleitorado hardcore para depois amenizar seu discurso para militantes moderados.
Há muito de estratégia em algumas das ambiguidades. Lógico que, sim. Sua sensibilidade popular está com o povão. A comunicação do presidente não é linear e isso confunde seus aliados e adversários. As contradições, as provocações e os exageros fazem parte da natureza de Bolsonaro e não há nenhuma perspectiva de que ele vá mudar.
*O autor é jornalista, pesquisador da FGV, ex-ministro de Comunicação e autor do livro “O pior emprego do mundo”
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados