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Virgínia Altoé Sessa

Artigo de Opinião

É medica oncologista do Hospital Santa Rita
Virgínia Altoé Sessa

A mulher que cuida de todos e negligencia a própria saúde

Mais do que um problema individual, essa realidade revela uma questão cultural. Mulheres foram historicamente condicionadas a sustentar o cuidado coletivo, mas pouco incentivadas a reconhecer a própria vulnerabilidade e valorizar a individualidade
Virgínia Altoé Sessa
É medica oncologista do Hospital Santa Rita

Públicado em 

08 abr 2026 às 10:00
No consultório de oncologia, há uma frase que escuto com frequência: “Doutora, eu achei que não era nada”. Raramente ela vem sozinha. Logo depois surgem as justificativas: a rotina corrida, o trabalho, os filhos, um familiar que precisava de cuidados, compromissos que pareciam mais urgentes do que investigar um sintoma aparentemente pequeno.
Ao longo dos anos acompanhando mulheres em tratamento contra o câncer, aprendi que o diagnóstico tardio nem sempre está ligado à desinformação. Muitas pacientes sabem da importância dos exames preventivos e reconhecem sinais de alerta, mas ainda assim adiam a consulta. Não por negligência, mas por prioridade, e quase sempre elas mesmas ocupam o último lugar da própria lista.
A sociedade ensinou às mulheres o papel do cuidado. São elas que organizam a saúde da família, acompanham consultas, administram medicamentos e oferecem suporte emocional dentro de casa. No entanto, esse mesmo papel, quando levado ao extremo, transforma o autocuidado em algo secundário, quase dispensável.
Persiste a ideia silenciosa de que voltar o olhar para si mesma é exagero, ou até egoísmo. Muitas pacientes relatam que não quiseram “incomodar”, que preferiram esperar passar ou que acreditaram não ser algo importante diante das demandas do cotidiano. O corpo, porém, não segue a lógica da agenda. Ele dá sinais, inicialmente discretos, depois insistentes.
O câncer ensina, de forma dura, que o tempo importa. Diagnósticos precoces ampliam possibilidades terapêuticas, reduzem impactos físicos e emocionais e aumentam significativamente as chances de sucesso no tratamento. Ainda assim, é comum que mulheres cheguem ao consultório após meses ignorando sintomas que mereciam investigação desde o início.
Mais do que um problema individual, essa realidade revela uma questão cultural. Mulheres foram historicamente condicionadas a sustentar o cuidado coletivo, mas pouco incentivadas a reconhecer a própria vulnerabilidade e valorizar a individualidade. Cuidar de si mesmas, muitas vezes, parece um privilégio, quando, na verdade, é uma necessidade básica.
Em 8 de abril, Dia Mundial de Combate ao Câncer, a data também convida à reflexão: de que adianta exaltar a mulher que dá conta de tudo, se não a encorajamos a cuidar da própria saúde? Valorizar a mulher passa, necessariamente, por reforçar que ela não precisa ser incansável para ser admirável, inclusive quando o assunto é prevenção e atenção aos sinais do próprio corpo.
Câncer de mama
Câncer de mama Crédito: Shutterstock
O autocuidado não deve ser entendido como um gesto de vaidade ou luxo, mas como um compromisso com a própria vida. Fazer exames, procurar atendimento ao perceber mudanças no corpo e reservar tempo para a própria saúde não significa abandonar responsabilidades, mas garantir que seja possível continuar exercendo todos os outros papéis que ocupam com tanta dedicação.
Talvez seja hora de inverter essa lógica enraizada. A mulher que cuida de todos também precisa aprender a se incluir nesse cuidado. Porque quando ela se coloca em segundo plano repetidamente, não apenas adia uma consulta ou um exame, mas a chance de proteger a própria história.
E nenhuma mulher deveria precisar adoecer para perceber que também merece ser prioridade.
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