“Treino é treino; jogo é jogo.” A célebre máxima futebolística, atribuída a Didi – craque da Seleção no bicampeonato mundial em 1958 e 1962 –, quer dizer mais ou menos o seguinte: seu melhor repertório deve ser guardado e apresentado nas ocasiões que realmente importam. E é com essa frase que um integrante do QG da campanha de Aridelmo Teixeira (PTB) resume a estratégia planejada para o candidato nos próximos dias.
Isso quer dizer que, a partir de agora, Aridelmo deve intensificar o fogo que tem aberto contra Renato Casagrande (PSB) desde o início da campanha. Mesmo sem jamais citar Casagrande, para não incorrer em problemas com a Justiça Eleitoral, Aridelmo não poderia ter alvo mais evidente. Aliás, nos bastidores da campanha de Casagrande, há a certeza de que o quase secretário de Educação de Paulo Hartung (MDB) só entrou na disputa para cumprir esse papel de alvejá-lo.
Nas primeiras semanas de campanha, Aridelmo já vinha fazendo críticas ao ex-governador. Em um vídeo gravado por ele sobre a poupança deixada para Hartung de 2014 para 2015, o empresário contestou os números de Casagrande. “Acho que é desconhecimento, porque nunca foi gestor de fato”; “Uma pessoa que entrega o governo dessa forma pode ser chamado de austero? Sabe gerir alguma coisa? Se foi por desconhecimento, é porque efetivamente ele não conhece.”
Já na sabatina da CBN, no dia 1º de setembro, Aridelmo disparou: “Se nós não tivéssemos tomado a decisão de reprovar o candidato na eleição de 2014 e eleger o novo, nós estaríamos a mesma coisa [que o Rio de Janeiro]. Olha para as propostas: construção da Quarta Ponte, túnel não sei daonde (sic). De onde é que ia sair aquele dinheiro? Nós estaríamos hoje com salários atrasados. (...) Não é pessoal. É o modelo mental dele. Como é que ele pensa? Ele só pensa em gastar”.
Na última semana, já se pôde observar uma elevação do tom do petebista. Na propaganda eleitoral gratuita levada ao ar na sexta-feira (14), Aridelmo trouxe à tona a delação premiada de um ex-executivo da construtora Odebrecht, citando Casagrande como suposto beneficiário de caixa dois de campanha em 2010.
“Com tudo o que está acontecendo hoje no nosso país, você teria coragem de votar em um candidato acusado de corrupção, envolvido no caso Odebrecht, investigado pela Lava Jato? Não acredito que você vai fazer uma coisa dessas com a sua família, com o seu Estado e com você”, afirmou Aridelmo, em seus 31 segundos de TV.
A referência foi à delação de Sérgio Neves, ex-superintendente da Odebrecht em Minas Gerais e no Espírito Santo, que veio a público em abril de 2017. Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, Neves declarou que pagou R$ 1,8 milhão em caixa 2 para a campanha de Casagrande ao governo em 2010.
No mesmo dia, a entrevista ao vivo de Aridelmo ao ES1 foi um festival de caneladas no ex-governador (veja notas).
Assim, a se cumprir a promessa da campanha de Aridelmo de subir ainda mais o tom, Casagrande pode preparar caneleiras mais fortes, um escudo de maior espessura ou eventuais contragolpes – a depender da estratégia escolhida por ele: “dar a outra face” ou “não levar desaforo para casa”. Até agora, ele vinha ignorando. No debate da UVV na semana passada, começou a revidar um pouco.
Além do chute de efeito (“folha seca”), a marca maior de Didi no comando do meio de campo da Seleção era a elegância desfilada nos gramados. Vamos ver até que ponto a mesma elegância será mantida pelos candidatos uma vez iniciada a temporada de debates televisivos.
Ação e reação
Na série de entrevistas ao vivo da TV Gazeta com candidatos ao governo na semana passada, a de Casagrande foi dada na quarta-feira, dois dias antes da de Aridelmo. Este, ao que parece, estudou bem a entrevista do adversário.
Economia nacional
“Nós não sabemos bem como vai ser o cenário econômico do Brasil no ano que vem”, afirmou Casagrande, na quarta. Na sexta, Aridelmo fuzilou: “Eu vi um candidato aqui com vocês falar assim: ‘Ah, eu não sei bem o que vai acontecer com a economia o ano que vem’. Meu amigo, se você não sabe, pega e vai pra casa. Deixa alguém que sabe”.
Rambo
“Vou retomar o comando da segurança pública. (...) Esse comando será do governador”, afirmou Casagrande, na quarta. Na sexta, Aridelmo ironizou, com um gesto de halterofilista acompanhando a fala: “Fazer de macho e assumir o controle de Rambo da segurança pública, isso não traz resultados, já foi feito”.
Rombo
Na mesma entrevista, Aridelmo fez menção à quebradeira do governo Vitor (1995-1998), que tinha Casagrande como vice e concedeu reajuste impagável ao funcionalismo. “Tem candidato que já participou do governo duas vezes. Quebrou o Estado uma vez como vice. Voltou depois, de novo, como titular.”
Aí forçou a barra...
Dizer que Casagrande “quebrou o Estado como vice” é como botar o confisco da poupança na conta de Itamar ou o mensalão na conta de José Alencar...
Para constar
Casagrande não foi acusado de corrupção (nem de nada, formalmente) em decorrência da delação da Odebrecht.