Desde novembro de 2015, quando a operação da Samarco foi suspensa em decorrência da maior tragédia ambiental da história do país, causada pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), a cidade de Anchieta sofre os efeitos da elevada dependência econômica que desenvolveu ao longo de décadas com a mineradora.
Só para dar uma ideia, 65% da arrecadação municipal é proveniente das atividades da companhia e dos seus prestadores de serviço. Aliás, uma arrecadação alta, que fez com que o município do Sul capixaba sempre figurasse entre os primeiros em rankings como o de receita per capita.
A questão é que o quadro, que já tem sido preocupante, será ainda mais dramático deste ano para frente, especialmente no quesito contas públicas. Não é alarmismo falar em tempos difíceis. É apenas a constatação de que este é o primeiro ano que o baque da interrupção da Samarco será sentido no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que é repassado pelo governo do Estado e compõe a principal fonte de arrecadação da prefeitura.
Isso acontece porque a base de cálculo para o tributo considera anos anteriores. Dessa forma, o que vai valer para 2018 foi definido em 2017 a partir da média de participação dos anos de 2015 e 2016, ou seja, pela primeira vez o recorte temporal vai retratar a inatividade da mineradora, ainda que parcialmente, uma vez que de janeiro a novembro de 2015 sua planta em Ubu teve plena operação.
No ano que vem é que Anchieta deve viver sua fase mais difícil, como chegou a citar o prefeito Fabrício Petri há cerca de um ano. Naquela ocasião, em entrevista concedida a mim, ele se mostrava preocupado e dizia que o fundo do poço estava por vir. Chegou a apresentar números, como a estimativa de arrecadação para 2019 de R$ 127,3 milhões, menos da metade dos R$ 308 milhões arrecadados em 2015 e capaz apenas de honrar a folha de pagamentos dos cerca de 2.500 servidores.
Foi nesse mesmo período da entrevista que visitei Anchieta, e o cenário era desolador. Lojas fechadas, comércios vazios, empresas ociosas, alto índice de desemprego e uma população sem perspectivas. Passado um ano, o diagnóstico segue igual.
Agora, o que precisa mudar é a velocidade de ação do município. Cortes em custeio e pessoal têm que ser mais efetivos. É verdade que eles foram realizados na comparação de 2017 com 2016, como revelam os dados da Revista Finanças dos Municípios Capixabas, mas ainda não são suficientes.
Somente quem viu a mão pesada da tesoura foram os investimentos, reduzidos em 92,5%! Enquanto isso, a despesa per capita da Câmara de Vereadores de Anchieta é a mais alta do Espírito Santo: cada habitante “paga” R$ 471 para manter os políticos do município. O valor é mais do que o dobro que o segundo colocado Presidente Kennedy apresenta, R$ 217,14, e 10 vezes superior aos custos da Câmara de Cariacica (R$ 43,13).
O economista da Aequus Consultoria Alberto Borges reforça que é inevitável um ajuste fiscal severo nas contas de Anchieta se o município quiser se manter dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal. Para ele, “luxos” como o pagamento de transporte para moradores fazerem faculdade em outras cidades devem ficar no passado. “Esse será o primeiro ano da agonia de Anchieta. A situação para o poder público vai piorar muito. A prefeitura não terá alternativas que não sejam os cortes de pessoal e de serviços.”
Se isso está nos planos da administração, não foi possível saber, já que o prefeito não atendeu o pedido de entrevista da coluna. O que sabemos por enquanto, conforme disse na última semana o presidente da Vale – controladora da Samarco com a BHP – Fabio Schvartsman, é que não há perspectivas de retomada das operações.
Realmente, a agonia está só começando.
DESEMPENHO NAS ALTURAS
Depois de anos recebendo apelidos como rodoviária ou puxadinho, o Aeroporto de Vitória finalmente foi bem avaliado por quem o frequenta. A inauguração do novo complexo já rendeu resultados positivos. Na Pesquisa de Satisfação dos Passageiros realizada pelo Ministério dos Transportes, o Eurico de Aguiar Salles foi eleito o melhor na categoria até 5 milhões de passageiros, com nota 4,59, numa escala de 1 a 5, a frente dos terminais de Manaus, Natal, Maceió, Goiânia, Cuiabá, Belém e Florianópolis. Só para ter uma ideia, na pesquisa anterior, antes da inauguração, ele era o penúltimo, com 3,8 de nota.
NEM TUDO SÃO FLORES
O terminal capixaba também carimbou o primeiro lugar do levantamento na limpeza dos sanitários (4,56), disponibilidade de assentos de embarque (4,75) e velocidade de restituição de bagagem (4,73). Já a qualidade da internet/wi-fi (1,96) e o custo-benefício dos produtos comerciais (2,77) ficaram em último lugar.
O ROBÔ PEIXE
O chamado FlatFish, ou o robô peixe, será o novo aliado das petrolíferas na inspeção submarina de plataformas. O equipamento, que vai atuar de forma autônoma a até 3 mil metros de profundidade, será apresentado pela Shell durante a Mec Show 2018, que vai acontecer de 7 a 9 de agosto. Com investimentos de R$ 30 milhões, o simpático robô vai ajudar a reduzir em até 50% os custos das inspeções em alto mar, além de contribuir para reduzir os riscos de acidentes com trabalhadores offshore.
CHANTAGEM TECNOLÓGICA
Cliente do Banco do Brasil conta que ao usar pela primeira vez o chat do aplicativo da instituição, recebeu a ligação do gerente dizendo que se ele quisesse continuar com o relacionamento virtual, teria que aderir a um pacote que incluia cheque especial. O problema é que o consumidor queria distância desse tipo de crédito. Mas depois de relatar isso ao funcionário do banco, a resposta que ouviu foi: “Então, você vai ter que ser atendido só na sua agência!”.
EM RITMO LENTO
Desde setembro de 2017, nenhuma petrolífera registra no ES notificações de indícios de hidrocarbonetos, ou seja, de potenciais descobertas de petróleo e gás. O resultado ruim é fruto dos baixos investimentos exploratórios nos últimos anos. Mas, como a Petrobras voltou a prospectar no litoral Norte capixaba em 2018, pode ser que em breve jorrem boas notícias.
NOVELA LOGÍSTICA SEM FIM
Será a ferrovia ligando a Capital a Presidente Kennedy o novo Aeroporto de Vitória? Se seguir o mesmo ritmo, uma nova estrada de ferro só em 2033. Pelo jeito o ES nunca vai ficar órfão de uma novela logística.
O BOM FILHO A CASA TORNA
Márcio Félix, que hoje é o segundo nome forte no Ministério de Minas e Energia, como secretário-executivo, já tem planos para retornar para o Espírito Santo assim que concluir sua participação no governo federal em 2018.
Félix, que é funcionário de carreira da Petrobras e já foi secretário de Desenvolvimento do Estado por quase três anos (2010 a 2012), não revelou, entretanto, se irá voltar para a iniciativa pública ou privada capixaba.
“Vou analisar a melhor alternativa. Mas pretendo me dedicar ao desenvolvimento econômico, social e ambiental do querido Espírito Santo.”