Mal começou o ano e o cenário para o comércio exterior mudou. A grande novidade é o acordo inicial entre Estados Unidos e China, após 18 meses de beligerância comercial, que se irradiou em muitos países. O acordo assinado pelos gigantes traz a esperança de redução de uma tensão altamente incômoda, que tem contribuído para desacelerar o PIB mundial. Para o Espírito Santo, é a primeira boa notícia que a sua economia recebe em 2020. Afinal, quase a metade do PIB capixaba é atrelada aos mercados internacionais.
Na quarta-feira (15), minutos após a assinatura do protocolo EUA/China, as bolsas de valores atingirem máximas recordes. Afinal, são as duas maiores economias do planeta e qualquer movimento (para o bem ou conflituoso) na relação entre ambas tem impacto na economia global, afetando o bolso dos cidadãos em qualquer parte do planeta.
Mas, nem tudo são flores. No dia seguinte, as bolsas já haviam recuado, por razões que não devem ser desconsideradas. O documento assinado é apenas um primeiro passo de muitos que precisam ser dados. Os dois signatários reconhecem que há muitas dúvidas (inclusive tarifárias) e pendências que precisam ser sanadas. Prometem diálogo - justamente o que faltou nos últimos 18 meses.
Qual será a dimensão do benefício que o acordo EUA/China poderá proporcionar ao comércio global? É muito cedo para tentar avaliar isso, mas existem preocupações que surgem desde já. Elas de fundam na percepção de que americanos e chineses assinaram acordo protecionista, mesquinho sob o ponto de vista mercantilista, visando a garantir mercado para alguns produtos.
Os dois lados estão nitidamente buscando aumentar suas exportações e assegurar saldos na balança comercial. É um tratado de socorro mútuo e alcance limitado, diferente dos muitos firmados há até poucos anos, que estabeleciam normas para abrir mercados e promover o livre comércio.
Ficou acertado que os Estados Unidos manterão as tarifas sobre US$ 360 bilhões em produtos importados da China (travando parte do comércio). Embora tenham desistido de criar novas tarifas sobre US$ 162 bilhões, nada menos de 64,5% das importações americanas de China continuarão sujeitas a tarifas. Ou seja, a guerra comercial foi apenas arrefecida, mas não terminou.
Estudo feio pela Confederação Nacional da Indústria comparou produtos americanos taxados pela China e pelos EUA com o comércio desses bens pelo Brasil. Ficou constado que alguns setores produtivos brasileiros (notadamente do agronegócio) aumentaram suas vendas em decorrência da guerra comercial.
Em função do acordo, a China deve elevar a compra de produtos agrícolas americanos, e num primeiro momento, o Brasil deverá perder cerca de US$ 10 bilhões em exportações. Essa perspectiva não atinge o Espírito Santo (felizmente). Nosso principal produto do campo é o café, que sempre teve nos Estados Unidos o destino número um. O mercado asiático ainda não é uma praça de grande peso para o nosso café.