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Tarcísio Bahia

A solidariedade passa pelas calçadas das cidades

Basta andar pelas ruas para ver cada vez mais pessoas dormindo nas calçadas e, talvez por ironia, quase sempre sob uma marquise, toldo ou pérgula que resistem ao tempo

Publicado em 26 de Dezembro de 2018 às 15:19

Públicado em 

26 dez 2018 às 15:19
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia Tarcísio Bahia
Homem improvisa com lençóis para se abrigar do frio embaixo de marquise Crédito: Vinicius Gonçalves/TV Gazeta
Nas cidades, alguns elementos arquitetônicos que aparentemente são detalhes sem importância e que acabam sendo desvalorizados ou despercebidos na verdade contribuem de modo intenso para a dinâmica urbana. É o caso das marquises, toldos e pérgulas que, justapostos às fachadas ao nível do térreo das edificações, possuem a função de proteger os pedestres da chuva e do sol durante suas caminhadas pelas calçadas, inclusive valorizando as vitrines comerciais, ou seja, criando condições para flanar, como bem definia o poeta Baudelaire, encantado com a agitação de Paris do século XIX.
Nas cidades pré-modernas, quando não havia o conceito de afastamento ou recuo frontal das edificações, marquises, toldos e pérgulas eram elementos comuns que valorizam o espaço público, dando mais conforto aos caminhantes. Aí vieram os automóveis e com eles a ideia que a cidade deveria ser adequada ao novo símbolo de modernidade. Para isso, a solução seria recuar as edificações do alinhamento dos lotes, para que as ruas pudessem ser alargadas, melhorando a fluidez dos veículos automotores. Estando recuadas, as construções foram se afastando das faixas de percursos das calçadas, de tal modo que marquises, toldos e pérgulas perderam muito do seu valor. E assim as cidades foram cada vez mais construídas em função dos carros e não das pessoas.
Uma das vantagens daquela cidade pré-moderna, antes do recuo frontal, é que as casas ficavam coladas nas calçadas, com suas janelas abertas, permitindo uma maior integração entre moradores de uma rua ou bairro e entre eles e os caminhantes. Ainda que todo mundo “se metesse na vida de todo mundo”, havia uma unidade social que beneficiava toda a comunidade.
É claro que o aumento populacional, mas principalmente a maior densidade, necessária em boa parte das cidades do mundo atual, que verticaliza o espaço urbano, inviabiliza essa ideia de integração. Mas ainda assim não há justificativa para fazermos do espaço coletivo das calçadas algo despossuído de qualidades que promovam um caminhar confortável, e aqui volto ao tema dos elementos que nos protegem da chuva e do sol.
Nesse ponto, faço uma inflexão para tratar do uso inesperado de muitos espaços urbanos que são cobertos por marquises, toldos e pérgulas, afinal eles ainda existem na cidade.
A atual e perversa crise econômica pela qual passa o país desde 2014, e que não dá sinais efetivos de estar definitivamente perto do fim, teve como uma de suas consequências o aumento no número da pobreza, segundo dados recentes do IBGE. Com isso, houve também crescimento significativo da população de rua, principalmente nas grandes e médias cidades. E, de fato, basta andar pelas ruas para ver cada vez mais pessoas dormindo nas calçadas e, talvez por ironia, quase sempre sob uma marquise, toldo ou pérgula que resistem ao tempo.
De modo geral, grande parte da população urbana que não se encontra na linha de pobreza se sente incomodada ao ver pessoas dormindo na rua, justamente sob os elementos arquitetônicos de cobertura como marquises e afins. Isso se vê reforçado por associarem tais indivíduos à violência urbana e ao consumo de drogas, esquecendo que muitas vezes são apenas pessoas que não encontraram oportunidades de se encaixar no mundo. Daí que ao ver alguém deitado na calçada, que não tenhamos preconceito, e pensemos em como somos privilegiados.
O Natal, graças a sua simbologia cristã, está muito relacionado à caridade e compaixão. Cabe, portanto, aplaudir o gesto recente que a comunidade de Jardim da Penha fez pelos moradores de rua do bairro.

Tarcísio Bahia

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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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