Executado em touradas e em desfiles militares desde o século XVI, o pasodoble é um estilo musical e uma dança de origem espanhola. Pode ser considerado a tradução das emoções das touradas hispânicas para o salão de dança. Incorporando o espírito do toureiro orgulhoso e resoluto, o homem conduz a dama pelo salão como se ela fosse a sua capa. É uma dança forte, decidida, de tempos bem marcados, na qual se sente o tempo todo uma tensão no ar entre os dançarinos.
No Espírito Santo e em Brasília, o governador Paulo Hartung e a senadora Rose de Freitas (ambos do PMDB) estão dançando pasodoble faz tempo.
Enquanto executam seus passos, o que cada um deles enxerga por cima do ombro do outro é a cadeira de governador do Estado. Rose é candidatíssima ao governo, de maneira declarada. Em outubro de 2017, já dizia-se disposta até a disputar o direito à candidatura pelo voto dos correligionários, em convenção do PMDB, em julho.
Há quem diga que, para cumprir o objetivo, ela pode buscar outro partido até o dia 7 de abril. Seja por qual sigla for, a candidatura de Rose é considera por ela própria como “missão pessoal e intransferível”, nas palavras do prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB).
Quanto a Paulo Hartung, fiel ao próprio estilo, não antecipa decisões e mantém o suspense sobre o cargo ao qual concorrerá. Mas, nas últimas semanas, tem emitido sinais agudos de que tende a permanecer no governo em vez de se desincompatibilizar – para concorrer a outro cargo eletivo, ele teria que renunciar ao mandato até o próximo dia 7 de abril. Ficando mesmo no cargo de governador, Hartung muito provavelmente partirá para a reeleição. Assim, fatalmente, lá na frente, Rose e Hartung vão se esbarrar e se embolar na pista de dança eleitoral.
Acontece que já estão se esbarrando – e pisando no pé um do outro! –, em um ensaio do pasodoble que deverão apresentar aos capixabas durante a campanha. Não é de hoje que o casal formado por inimigos íntimos no PMDB tem protagonizado uma disputa explícita para mostrar à população capixaba qual dos dois exerce maior influência sobre o governo Temer, qual dos dois consegue cavar mais investimentos junto aos ministérios e tem maior poder resolutivo para destravar os gargalos logísticos do Estado em Brasília – leia-se portos, estradas e, sobretudo, o Aeroporto de Vitória.
Coreografia estranhíssima a de Rose e Paulo Hartung: da greve da PM ao imbróglio da (não) duplicação da BR 101, passando até por lojas do novo aeroporto, os rivais peemedebistas executam seus passos ao mesmo tempo, mas praticamente nunca no mesmo espaço. O que já vinha se observando desde 2017 intensificou-se nas últimas semanas. O pasodoble na versão capixaba tem se manifestado em uma sucessão de agendas paralelas, articuladas ora pelo Palácio Anchieta, ora pelo gabinete da senadora, envolvendo ministros de Estado e até o presidente Temer em pessoa. Seja batendo à porta do Planalto e dos ministérios, seja trazendo aqui representantes da Esplanada, Rose e Hartung raramente estão no mesmo evento, mas por vezes promovem atos que tratam rigorosamente da mesma pauta.
Desde meados de fevereiro – coincidindo com o anúncio de Rose de que é pré-candidata ao governo –, essa tourada rítmica passou a ganhar forma de um jeito ainda mais peculiar: o duelo pelos créditos, pelos louros e, acima de tudo, pela paternidade/maternidade de conquistas e notícias positivas em geral que vêm de Brasília para o Espírito Santo.
As respectivas assessorias de imprensa (e aqui vai nossa solidariedade aos colegas) nunca trabalharam tanto, travando uma guerra à parte de releases: textos de divulgação, de caráter informativo e/ou promocional, neste caso ressaltando os feitos políticos de cada um.
O auge (pelo menos até agora) se deu nesta última semana, em torno da paternidade pela assinatura da Licença de Instalação do Ibama para o Porto Central, obra orçada em mais de R$ 3 bilhões no município de Presidente Kennedy, litoral sul capixaba. Aguardada há pelo menos cinco anos, a licença foi enfim assinada na última quinta-feira. Naquele dia, Hartung e Rose estavam em Brasília, batendo à porta de órgãos federais estratégicos.
A BATALHA DE MENSAGENS DAS ASSESSORIAS
Confira comigo no replay o empenho simultâneo de Rose e de Paulo Hartung em assinar a certidão de nascimento da criança do Porto Central, com base em mensagens disparadas pelas respectivas assessorias ao longo da última quinta:
Às 19h13, a assessoria de Hartung envia o primeiro release, intitulado “Liberada licença para instalação do Porto Central”. O texto começa assim: “O governador Paulo Hartung retornou de Brasília, nesta quinta-feira (01), com a licença de instalação do Porto Central”. Acompanhando o texto, foto da licença propriamente dita, com assinatura da presidente do Ibama, Suely Araújo, e áudio com entrevista do governador. No áudio, Hartung compartilha os méritos. Enaltece o esforço da “turma do governo”, dos empresários e também da “bancada federal”. Todos que “ralaram muito” pela obtenção dessa “grande vitória para o Espírito Santo”. Mas...
Às 19h40, a assessoria do governo manda novo release. O segundo parágrafo é aberto com a afirmação de que “a notícia foi dada pelo governador Paulo Hartung, que esteve em Brasília nesta tarde”. No entanto...
Às 19h53, a assessoria de Rose contra-ataca, e envia à imprensa capixaba seu release com a própria versão dos fatos. O título: “Sarney Filho confirma à senadora Rose: Licença de Instalação do Porto Central já está assinada”. Os dois primeiros parágrafos: “A senadora Rose de Freitas recebeu nesta quinta (1º) do ministro do Meio Ambiente (...) a comunicação da assinatura da Licença de Instalação (LI) do Porto Central de Presidente Kennedy. (...) Sarney Filho, de Brasília, ligou para a senadora no final da tarde desta quinta, pouco depois da assinatura da licença”.
Para enfatizar a atuação direta da senadora nas tratativas que levaram àquele feliz desfecho, o texto afirma ainda que, “no último dia 21 de fevereiro, Rose e o diretor-presidente do Porto, José Maria Novaes, haviam se reunido com o ministro em Brasília para garantir a LI”. Novaes, segundo o texto, “agradeceu especialmente a senadora, a bancada federal e os acionistas que colocaram os recursos” (notem bem: nenhuma menção ao governo estadual). Ilustrando tudo, uma foto de Rose e Novaes ao lado de Sarney Filho e Suely Araújo. E uma discreta ressalva: “A liberação saiu um dia antes do previsto” (drible de Hartung?). Todavia...
Às 20h07, vem a tréplica da assessoria de Hartung. O release do governo é reenviado à imprensa. Mesmíssimo texto, mas desta vez destacando no topo aquela informação contida no 2º parágrafo: “A notícia foi dada pelo governador Paulo Hartung, que esteve em Brasília hoje”.
TROCANDO A METÁFORA
Para quem prefere jogos intelectuais a estilos de dança, podemos trocar a pista pelo tabuleiro de xadrez. Rose e Hartung vêm se marcando individualmente há tempos, tentando se antecipar aos movimentos um do outro e bloqueá-los.
É SÉRIO, MAS TÁ GOZADO...
É claro que tudo isso é muito sério. Mas a política também tem lá a sua graça. E disputas políticas também, principalmente quando se desenrolam diante do público de maneira tão explícita.
VIVA A LIVRE CONCORRÊNCIA!
Parece que esta briga/baile está tendo um lado positivo. A partir da competição entre Rose e PH, que tem evidente pano de fundo eleitoral, algumas coisas importantes para o ES estão enfim saindo do papel. No mundo dos negócios, a livre concorrência é benéfica: para prosperar e superar concorrentes, empresas oferecem melhores preços, serviços e produtos. O mesmo vale para o mundo político. Querendo convencer o eleitorado a “levar seu produto”, Rose e PH têm se desdobrado para superar o rival...