Integrado ao governo Paulo Hartung desde setembro de 2015, o diretor-presidente da Cesan, Pablo Andreão, está de saída do cargo. No dia 4 de junho, o engenheiro de 45 anos volta a atuar na iniciativa privada, onde construiu toda a sua carreira antes de receber o convite do governador Paulo Hartung para comandar a empresa pública estadual de saneamento básico que opera em 52 dos 78 municípios capixabas. Andreão assumirá o cargo de diretor de negócios de uma grande empresa brasileira com atuação no ramo de resíduos, sediada em São Paulo, com cerca de 40 mil funcionários. Diz ter sido convidado há cerca de dois meses e aceitado há duas semanas.
Após quase três anos à frente da Cesan, Andreão deixa o cargo com a sensação de dever cumprido. Antes de chegar ao governo, ele trabalhava na Odebrecht Ambiental em Tocantins. Trata-se do braço da empreiteira investigada na Lava Jato na área de tratamento de água e saneamento. No início da carreira, o capixaba de Castelo trabalhou na empresa que gere o sistema de água e esgoto de Cachoeiro, antes pertencente ao grupo Águia Branca e depois à mesma Odebrecht.
Em seus primeiros tempos de Cesan, Andreão enfrentou uma tempestade perfeita: crise hídrica, queda brutal de receitas e paralisação de obras. “Ninguém projetava em 2014 aquela queda de receita que viria logo depois. E a principal matéria-prima da Cesan, a água, faltou. Então, crise econômica mais crise hídrica, eu cheguei aqui com nosso diretor de obras assinando 18 ordens de paralisação de obras, de estação de tratamento, extensão de rede, entre outras, porque a Cesan não tinha dinheiro para fazer.”
As primeiras medidas de Andreão visaram à redução de custos e de cargos comissionados. Diz ter cortado 47 dos 90 cargos que recebem gratificação. “Eu mesmo acumulo até hoje o cargo de diretor-presidente com o de diretor de Relações Institucionais”, exemplifica o demissionário. Também cita a renegociação de contratos com fornecedores e o programa de desligamento voluntário, ao qual aderiram quase 200 servidores da empresa pública – que tem o governo do Estado como principal controlador, sendo detentor de 99% das ações.
Apesar das dificuldades iniciais, Andreão comemora as entregas e a maneira como deixa a Cesan, cujo resultado no ano passado foi um lucro recorde. “A Cesan registrou em 2017 o maior resultado da sua história: superávit de R$ 127 milhões. A previsão é que este ano isso seja superado em mais uns 30%.”
Esse dinheiro será revertido em mais investimentos nos municípios. Este ano, o orçamento da Cesan beira os R$ 900 milhões. “A Cesan tem uma função social. Não estamos aqui para gerar lucros e sim para gerar resultados para a sociedade. Então, esse superávit da Cesan ela usa para fazer investimentos. E, quando ela faz investimentos, ela aumenta a receita dela, principalmente por meio da cobrança de taxa de esgoto. Então a roda gira.”
Como destaques de sua gestão, Andreão relaciona três Parcerias Público-Privadas (PPPs) na Região Metropolitana: A da Serra foi lançada em 2015, antes de sua chegada, mas ele ajudou a consolidá-la. Os investimentos totais chegam a R$ 600 milhões, e a concessionária parceira é o consórcio Serra Ambiental.
A de Vila Velha, também da ordem de R$ 600 milhões, foi iniciada em 2017, tendo como concessionária o consórcio Vila Velha Ambiental. Ambas as concessionárias são controladas pela mesma empresa, a Aegea Saneamento.
Já a PPP de Cariacica, com investimento um pouco maior, será iniciada este ano, segundo Andreão. “Com isso fechamos a Região Metropolitana.” Além disso, ele destaca o pacote de obras do programa Águas e Paisagens, viabilizado a partir de um financiamento do Banco Mundial que ultrapassa R$ 1 bilhão, sendo cerca de R$ 600 milhões só para obras da Cesan. As obras, afirma Andreão, já estão em curso, pulverizadas pelo interior do Estado, sobretudo na região do Caparaó, e contemplando bacias como a do Jucu e a do Itapemirim.
Outros destaques são a Barragem dos Reis Magos, na Serra, já inaugurada, e a Barragem do Jucu, com investimento de mais de R$ 100 milhões e cuja ordem de serviço será dada muito em breve.
CENA POLÍTICA
É, não tá fácil pra ninguém... Principalmente se você for político com mandato e candidato à reeleição ou a algum outro cargo. O deputado estadual Hudson Leal (PRB) desabafa: “Tá difícil pedir voto. Acho que vai ter muita abstenção no Estado. As pessoas estão com a imagem muito ruim da política e dos políticos e botam todos nos mesmo saco”.
PRIVATIZAÇÃO, NÃO
Logo que Andreão chegou à Cesan em 2015, até por causa de sua experiência pregressa em empresas privadas do ramo, houve uma fortíssima especulação de que o governo estadual planejava privatizar a Cesan, o que, no entanto, não se confirmou. “Isso nunca esteve em pauta e não está em pauta”, frisa ele.
CAPITALIZAÇÃO, SIM
“O que nós discutimos em 2015 e 2016, que era uma necessidade, era aumentar o capital da Cesan via Caixa Econômica Federal. Isso não se concretizou”, explica Andreão. “Havia o que eles chamam de um relatório prévio de aprovação. Mas, com novas decisões que foram tomadas, isso por enquanto ficou de standby no Comitê de Investimentos do FGTS.”
OPERAÇÃO FRUSTRADA
A Assembleia Legislativa chegou a aprovar um projeto de lei para autorizar a operação com a Caixa. O governo estadual permaneceria como acionista majoritário, mantendo cerca de 75% das ações. E a Caixa viria operar aqui como sócia da Cesan. Se a Cesan tivesse resultado, a Caixa também teria. Mas a operação não saiu do papel.
MELHOR EMPRESTAR O $
Andreão atribui isso ao ambiente político e econômico do país, que fez com que esses projetos de parceria deixassem de ser tratados como prioridade no momento. “Numa visão mais conservadora, a Caixa tem preferido entrar não como sócia, mas como agente financiador, num modelo clássico de empréstimo para os governos.”
LEILÕES NA BOVESPA
Tanto as licitações da PPP da Serra, na gestão anterior, como a de Vila Velha, na atual, foram realizadas por meio de leilão na Bolsa de São Paulo, para dar a máxima transparência ao processo de escolha da empresa parceira.